Heróis e vilões: Como a Europa está a falhar

Vivemos até há muito pouco tempo num mundo dominado por uma forma de estar, uma ordem conhecida e estável, no que diz respeito ao fornecimento de energia à Europa.

Até 2020, e segundo dados do Observatory of Economic Complexity, a Rússia foi o segundo maior exportador de petróleo do mundo, atrás apenas da Arábia Saudita.

Entre os maiores importadores, estão a China e a Índia. Refira-se que ambos foram dois dos mais importantes aliados do Kremlin. Apesar disso, isolar a Rússia parece ser uma tarefa impossível e a Europa é também responsável por isso.

A invasão da Ucrânia pelo exército russo veio mudar essa ordem e lançar o caos e imprevisibilidade. Como? Numa primeira instância, as alianças existentes são menos claras, como as declarações recentes do Primeiro-ministro indiano demonstram.

Por outro lado, a Rússia ainda tem aliados, cujas relações não foram abaladas durante a invasão à Ucrânia, e o inverno que já começou - e que se vai agravar no continente europeu - vai ter um papel fulcral e poderá redefinir o equilíbrio geoestratégico dos próximos anos.

Este é o cenário em que o presidente russo foi fazendo ameaças de corte do fornecimento de gás e petróleo à União Europeia. Uma ameaça que, se concretizada, pode levar a consequências económicas e sociais difíceis de dimensionar.

Estamos perante um dilema moral e ético que urge resolver: por um lado temos um país que foi invadido e que terá de enfrentar um inverno rigoroso, quando o fornecimento de energia está comprometido em cerca de 80% do território ucraniano. Não existem sinais de que os ataques aos meios de fornecimento de energia venham a ser interrompidos. Temos, adicionalmente, a União Europeia que se comprometeu a ajudar, doando 40 geradores capazes de abastecer, cada um, um hospital, além de transformadores. As condenações públicas repetem-se, ajudas em material de guerra e dinheiro estão a ser enviadas.

Por outro lado, a mesma Europa que defende uma menor dependência da Rússia, importou uma quantidade recorde de gás natural da Rússia entre os meses de janeiro e outubro. Estamos a falar de um aumento de 40% face a 2021.

Uma guerra é sempre uma situação sui generis, com vítimas e beneficiários, certo e errado, vilões e heróis. Esta guerra é, também, sobre uma mudança. Uma mudança de mentalidades e uma adesão à verdade.

Os heróis desta guerra serão todos aqueles que denunciarem uma política falhada e hipócrita, que dá com uma mão e prejudica com outra, que teme agir hoje em favor de uma independência energética futura, e que sacrifica vidas ucranianas ao inverno para não ter de colocar mais uma manta na cama que, felizmente, ainda temos.

Uma Europa dependente da boa vontade e do humor de Vladimir Putin, será a negação do futuro, refém da coragem e heroísmo de terceiros.

CEO da ACEDE - Empresa de Trabalho Temporário

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