Ricardo Reis

Humildade a menos

Dívida pública sobe, no 1º trimestre, para os 132,9% do PIB

Uma empresa canadiana, que dá uns palpites, e que tem menos trabalhadores do que o grupo de media que produz este jornal, foi posta num pedestal.

Alguns dos colunistas de maior sucesso na imprensa portuguesa usam a expressão “eu bem avisei…” com enorme frequência. Sempre me pareceu de mau tom esse exibicionismo, sobretudo porque o suposto sucesso é frequentemente discutível. Por isso, prefiro escrever colunas sobre os casos em que errei na minha avaliação. Não só esta não é a receita para o meu (in)sucesso como colunista, como prejudico a minha profissão que tão frequentemente é criticada por falhar nas suas previsões. Olhando para as notícias recentes sobre a dívida pública, permitam-me desta vez menos a humildade para dizer: eu bem avisei.
Em Outubro de 2014, partilhei o palco com Paul de Grawe e Mark Blyth numa conferência aberta ao público na Gulbenkian. Enquanto que eles propuseram, respectivamente, a criação de uma união fiscal na Europa e o perdão da dívida soberana, eu passei metade do meu tempo a sugerir emissões de dívida pública a longo prazo. No final, estava certo que tinha sido o mais chato dos oradores. Mas também confiava que tinha sido o mais relevante.
Por isso, passei 2014 e 2015 a insistir nestas páginas que o Ministério das Finanças estava a cometer um enorme erro. As taxas de juro de longo prazo na dívida portuguesa estavam baixíssimas e não iam ficar assim por muito tempo. Era uma oportunidade única, que não precisava de espalhafatos ou qualquer negociação com a troika. Mas pouco se fez. Em Janeiro de 2016, desisti e lamentei a oportunidade perdida. Desde então as taxas de juro subiram todos os meses. Esta semana, Joaquim Sarmento, no jornal ECO, calculou aproximadamente quanto é que o Estado português perdeu por não seguir o meu conselho: são cerca de 200 milhões de euros por ano em juros, bem mais do que o orçamento do Ministério da Cultura. Sempre que voltarmos ao mercado nos próximos meses, o número vai aumentar. Eu bem avisei.
Segundo, já várias vezes escrevi que o espetáculo da DBRS é um circo. Uma empresa canadiana que dá uns palpites, e que tem menos trabalhadores do que o grupo de media que produz este jornal, foi posta num pedestal devido a regras com pouco sentido do BCE. Graças a isso, podem regularmente dizer umas coisas vagas sobre a economia portuguesa e beneficiar de milhões em publicidade grátis. Há uns meses sugeriu-se que quando as taxas de juro ultrapassassem os 4% a DBRS ia passar à acção. Previ nestas páginas com confiança que não, o que iam era dizer precisamente o mesmo que dizem sempre, porque lhes garante publicidade de borla: isto está tremido, continuem a pôr-nos nas primeiras páginas, e depois logo se vê. Eu bem avisei.
Quem lê esta coluna também não foi surpreendido pela subida das taxas de juro, pela irrelevância das boas notícias sobre o défice público nos mercados, ou pelo facto de a dívida pública não estar a descer. Mas as duas previsões acima são as que me doem. Porque não se prestou atenção a uma chatice que valia milhões, e se perdeu tanta atenção num circo que não vale nada.

Professor de economia na London School of Economics

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