Opinião: Ana Rita Guerra

IA e a destruição de emprego. Alguém escapa?

robô inteligência artificial

Para quem pensa que despedimentos em massa acontecerão num futuro distante e profissões com menos-valias é que sofrerão, 2020 traz provas do contrário

Quando as empresas promovem os seus avultados investimentos em tecnologia e inteligência artificial, é comum salientarem que a modernização irá melhorar a vida dos seus funcionários, não roubar-lhes os empregos. Alguns estudos concluíram que o advento da IA e sistemas associados irá criar mais empregos que aqueles que vai destruir.

Mas para quem pensa que os despedimentos em massa vão acontecer num futuro distante ou que são as profissões com menos-valias que sofrerão, o novo ano trouxe provas do contrário. A iHeartMedia, maior detentora de estações de rádio nos Estados Unidos, despediu 850 funcionários de uma assentada promovendo a medida como resultado dos seus investimentos “significativos” em tecnologia e inteligência artificial. Quase 60 DJs de rádios ficaram sem trabalho.

“Este é mais um passo para a transformação bem-sucedida da companhia como empresa de média multi-plataforma do século XXI, e acreditamos que é essencial para o nosso futuro”, disse a iHeartMedia em comunicado. A mudança “melhora a competitividade” e a “eficácia” das suas marcas. Num memorando interno enviado aos funcionários, a empresa foi menos entusiástica, lamentando o “preço a pagar” para se modernizar.

Os investimentos estão a ser feitos para mudar a forma como a iHeartMedia vende publicidade, como usa dados e como desenvolve novos negócios, tais como a plataforma de podcasts. Mais eficiência e assistência aos funcionários a caminho da modernização, embandeira a empresa. Isso, é claro, para aqueles que ficaram.

Estamos na presença de uma questão paradoxal. Debate-se a necessidade de acelerar a transformação digital e fala-se de vencedores e perdedores da modernidade, avisando que quem não investir agora em tecnologia vai ficar para trás num mundo em transição. Os fabricantes tecnológicos e as consultoras promovem IA, robótica, IoT, Big data, analítica e o que mais há como revoluções de eficiência nas organizações, substituindo humanos em tarefas rotineiras e acelerando a sua execução. Mas quando as empresas usam essas características para reduzirem a necessidade de trabalhadores humanos, fala-se em distopia.

Os consumidores querem serviços melhores e mais baratos, com menos intermediários, mas quando as máquinas passam a fazer o trabalho de centenas de empregados, tornando os homólogos humanos obsoletos, fala-se em ganância corporativa.

O caso da iHeartMedia mostra que não são só os empregados de chão de fábrica que têm de se preocupar com robôs ou os entregadores de encomendas que têm de se ver com a concorrência dos drones. O futuro do trabalho, como escreveu o CEO do Palmer Group Shelly Palmer na AdWeek, não é tão certo como pensávamos. O seu conselho? Tornarmo-nos nos melhores colegas de IA que seja humanamente possível.

A ameaça a empregos de colarinho azul conta a história da automação que progressivamente fechou fábricas e exterminou empregos. Do que falamos agora é a ameaça aos colarinhos brancos. Pessoas que trabalham em posições consideradas de alto estatuto em firmas de advogados, instalações médicas, empresas de marketing, instituições financeiras. Estações de rádio.

Sim, muitos empregos serão criados, tal como aconteceu em anteriores ondas de progresso. No entanto, nunca houve tecnologias exponenciais como as que se apresentam agora. Nunca foi possível substituir tanta gente ao mesmo tempo, em tão pouco tempo. Não estamos preparados para isto e os impactos sociais vão ser consideráveis.

“Mesmo que haja trabalho suficiente para garantir emprego pleno em 2030, avizinham-se grandes transições que poderão igualar ou até superar a escala das mudanças históricas na agricultura e manufactura”, escreveu a McKinsey num mega relatório sobre o futuro do trabalho. “Os nossos cenários sugerem que, em 2030, 75 a 375 milhões de trabalhadores (3 a 14% da força de trabalho global) terão de mudar de categoria de ocupação.” A polarização de salários continuará, com o declínio continuado dos salários medianos e o aumento dos salários que já são altos. Nada de novo, portanto. A digitalização vai perpetuar o estado de coisas.

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