Inédito e exemplar

A reação do ministro Siza Vieira à insolvência da Dielmar tem tanto de exemplar, como de pouco comum. Confrontado com a justificação da administração, invocando os efeitos da crise pandémica, clarificou que a empresa acumulava prejuízos há 10 anos. Quanto ao papel do Estado, esclareceu que havia já 8 milhões de apoios acumulados, recusando mais ajudas a uma unidade que "não tem salvação". Num, e noutro caso, foi notório o desencanto com a gestão a quem acusou de não ter aplicado as medidas de reestruturação necessárias, nem ter capacidade para inverter a situação.

Raramente um governante foi tão claro e singelo e inédita a forma como a gestão foi responsabilizada. Vários estudos, com comparações internacionais, têm identificado a debilidade dos métodos e processos de gestão como um fator crítico no desempenho das economias. Portugal não compara bem, em especial com os países mais avançados. Entre nós, só há pouco o tema começou a ter algum acolhimento entre as organizações empresariais, sempre mais propensas a olhar para fatores externos (o contexto) ou semi-externos (a qualidade da mão-de-obra), do que a assumir responsabilidades próprias. Os problemas estão, não poucas vezes, mais "em cima" do que "em baixo" ou "fora" (se assim não fosse, como conseguiriam as multinacionais cá estabelecidas ter uma qualidade de gestão semelhante, para melhor, às que operam noutros países?).

É preciso atuar em coerência. Desde logo, dotando o Estado de meios que lhe permitam, não apenas atirar dinheiro para cima do problema, mas impor e seguir as mudanças necessárias. Uma bolsa de gestores seniores, com curriculum e provas dadas, que pudessem acompanhar a gestão, remunerados pelos resultados, é uma hipótese. Ao mesmo tempo, teria sido coerente que, aquando do acordo para a formação celebrado há uns dias, se tivesse dado espaço, quiçá destaque, a ações de demonstração estruturadas, partilhando boas práticas de gestão, na expectativa que o "ver" levasse ao "crer", contribuindo para a melhoria do desempenho empresarial e das condições de vida.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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