Inflação passa de temporária a persistente

A resistência do Banco Central Europeu em iniciar o movimento de subida das taxas de juro parece ter chegado ao fim, com a sinalização de Christine Lagarde, que indica que o início desse movimento vai começar com o fim do programa de compra de ativos, ou seja, no início do próximo trimestre.

Apesar de há alguns meses o BCE ter classificado a subida de preços como tendo um caráter temporário, o aumento das taxas de juro era um caminho expectável - em linha com o que já fizeram outros bancos centrais - e o próprio BCE foi ajustando o seu discurso nesse sentido.

Esta inversão da política monetária, apesar de esperada, não deixa de ser uma péssima notícia, sobretudo num País fortemente endividado como o nosso - perfil que é transversal aos setores público e privado.

No setor público, como bem sabemos, a poupança nos encargos com a dívida, que beneficiou dos juros baixos, muito contribuiu para a trajetória de consolidação orçamental.

No setor privado, as empresas vão ter de suportar custos de financiamento mais elevados, que se vão juntar à subida exponencial dos vários custos de produção que já enfrentam. Por seu lado, os consumidores confrontam-se com uma perda do poder de compra. Apesar da remuneração bruta mensal média por trabalhador ter aumentado no primeiro trimestre, diminuiu em termos reais, como ainda há poucos dias o INE divulgou.

Esta conjugação de fatores produz uma "tempestade perfeita", que mina a confiança dos agentes económicos e penaliza o crescimento.

Porém, nada está perdido. Tal como defendi durante a pandemia, também neste ambiente de elevada incerteza e contínua exigência é preciso contar com uma forte determinação das políticas públicas, para que possam assegurar, com sucesso, os apoios necessários e urgentes à manutenção da atividade empresarial e do emprego e evitar uma destruição massiva da capacidade produtiva.

O País tem de saber dar a melhor resposta à manutenção da capacidade produtiva, mitigar o mais possível a subida dos custos das empresas e, simultaneamente, apoiar o potencial de crescimento, eliminando custos de contexto e fazendo uso de dois grandes aceleradores transversais do crescimento económico e desenvolvimento sustentável: a reindustrialização e a orientação dos fundos europeus em prol da competitividade e da sustentabilidade, propostas que a AEP apresenta no seu mais recente estudo "Do pré ao pós pandemia: Os novos desafios".

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP)

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