Inovação ao serviço dos idosos

Se a longevidade da população é uma conquista da humanidade, o seu envelhecimento é um desafio complexo. Em 2019, por cada 100 jovens com menos de 15 anos existiam em Portugal mais de 160 idosos com mais de 65. O envelhecimento da população tem aumentado consistentemente e acelerou na última década. Associada a esta tendência, verifica-se um agravamento das situações de isolamento social das pessoas idosas, com o consequente défice de estimulação cognitiva, a incapacidade progressiva de criar vínculos interpessoais, resultando, frequentemente, na necessidade de institucionalização.

A pandemia Covid-19 veio expor as dificuldades no apoio a esta camada da população e, se no início da crise sanitária a preocupação foi salvar vidas, importa agora, mais do que nunca, repensar o envelhecimento, em que o prolongamento da vida seja acompanhado de qualidade de vida e de uma vida tanto quanto possível ativa, digna e feliz. Envelhecer com dignidade é ter direito a cuidados e assistência, à oportunidade de preservação da saúde física e mental, bem como à possibilidade de exercer uma cidadania e participação ativa na sociedade, criando e realizando projetos de vida significativos, em qualquer idade.

Para cumprir este exigente desígnio civilizacional não bastam as soluções existentes, é também preciso inovar. E a inovação, neste caso, visa promover o bem-estar, a autonomia e o potencial de cada pessoa - idoso, cuidador ou familiar -, fortalecer relações sociais e combater desigualdades. A esta inovação chama-se Inovação Social e traduz-se em produtos, serviços ou metodologias inovadoras que respondem com eficácia a problemas sociais. Não raras vezes, a inovação com maior impacto mobiliza a criatividade da sociedade civil, a experiência do setor social, recursos do setor privado e o acompanhamento próximo do setor público. A Inovação Social constitui por isso uma das maiores oportunidades de transformação social e económica do nosso tempo e pode, e deve, ser colocada ao serviço daqueles que na nossa sociedade são ou estão mais vulneráveis.

Graças ao financiamento europeu, foi possível criar em Portugal uma iniciativa pública pioneira que apoia empreendedores sociais e financia a experimentação de respostas sociais inovadoras, a Portugal Inovação Social. No final de 2020, tinham sido já aprovadas 581 candidaturas de projetos de inovação social, em todo o território nacional continental, representando mais de 110 milhões de euros de financiamento, onde se inclui mais de 35 milhões de euros de investimento social mobilizado junto de entidades privadas e públicas.

Relativamente aos idosos, estão a ser experimentados no terreno mais de 60 projetos destinados a melhorar as suas perspetivas de vida, esperando impactar positivamente cerca de 20.000 idosos. São disso exemplo as Aldeias Pedagógicas, que transformam em "mestres" os idosos que moram em aldeias remotas, revitalizando os seus ofícios e tornando-os anfitriões pedagógicos, em suas casas, para visitantes curiosos. Ou os projetos 10 mil Vidas e Chave de Afetos, que recorrem a soluções integradas de base tecnológica e humana para monitorizar 24 h a saúde e o bem-estar do idoso, atrasando ou evitando a necessidade da sua institucionalização. Ou o projeto Vozes de Gaia, que estimula a literacia para os média e capacita os idosos para lidarem com novas tecnologias de comunicação, através da sua integração na redação simulada de um jornal e de uma rádio acompanhados por jornalistas profissionais.

Os exemplos são muitos e Portugal tornou-se, nos últimos anos, um laboratório experimental de projetos de inovação social. Nada disto seria possível sem virtuosas parcerias intersectoriais, com o envolvimento de empresas, instituições e municípios que, na sua condição de investidores sociais, cofinanciam, apoiam e acompanham a execução destes projetos, potenciando a qualidade desta inovação experimental. No setor empresarial, há mesmo iniciativas especificamente destinadas a estimular este tipo inovação, como por exemplo o programa Mais Ajuda, dinamizado pelo Lidl, em parceria com o Grupo Renascença e a Beta-i, que este ano, na sua segunda edição, propõe-se premiar os melhores projetos de inovação social de apoio a idosos.

Vivemos uma crise sem precedentes nas nossas memórias de vida. Os idosos já eram e serão ainda mais um dos grupos especialmente vulneráveis. Para inventar um futuro justo e inclusivo, radicalmente melhor, é preciso inovar e mobilizar os recursos mais criativos e as instituições mais dinâmicas. Felizmente em Portugal já temos muitas luzes de esperança. Saibamos nós amplificar o seu brilho.

Filipe Almeida é presidente da Estrutura de Missão Portugal Inovação Social

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