Opinião: António Saraiva

Internacionalização entre ameaças e oportunidades

Foto: REUTERS/Jason Lee/File Photo
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A evolução da economia após a crise mostra bem como as empresas portuguesas souberam olhar para as oportunidades dos mercados globais e fazer delas a base da recuperação económica.

Contudo, à medida que se vai esgotando a capacidade disponível das empresas e a possibilidade de crescimento com base em aumentos do emprego, o desempenho das exportações tem vindo a esmorecer.

Acresce que a onda de protecionismo que hoje vivemos representa uma séria ameaça, com consequências na retração dos fluxos comerciais e nas decisões de investimento das empresas.

Face à escalada na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, o FMI veio já avisar que o aumento das tarifas poderá levar à redução de 0,5% do crescimento mundial para 2020.
Neste contexto, há três grandes mensagens que considero cruciais.

A primeira é que temos de recusar a fatalidade do protecionismo. A Europa tem de se manter firme na preservação de um sistema de comércio internacional baseado em regras comuns e prosseguir com a celebração de acordos de comércio livre bilaterais, por forma a garantir o crescimento do seu comércio internacional. A recente carta de sete líderes europeus (incluindo o primeiro-ministro português) apoiando a Comissão nos esforços para a conclusão do acordo com o Mercosul é um facto político a assinalar positivamente, mas também um sinal de que nem todos estarão a remar no mesmo sentido (a ausência do presidente francês entre os signatários foi particularmente notada).

A segunda mensagem é que qualquer tentativa de centrar a estratégia económica no estímulo à procura interna, esquecendo as exportações, terá como inevitável consequência o retorno a desequilíbrios insustentáveis, que voltarão a travar o crescimento. Os resultados económicos do primeiro trimestre deste ano, que já tive ocasião de comentar neste espaço, são um sinal de alerta. Regressámos, nos últimos 12 meses, a um défice na balança comercial, depois de seis anos de excedentes.

Consequentemente, a terceira mensagem é que os riscos e incertezas da conjuntura mundial não podem desencorajar a internacionalização. Pelo contrário, tornam mais evidente a necessidade de um esforço conjunto das instituições públicas, das empresas e das suas estruturas associativas em torno de uma estratégia coerente, nas suas diversas vertentes: o aumento da capacidade de oferta, a diferenciação e valorização dos bens e serviços exportados, a capacitação de mais empresas para a internacionalização, o alargamento das cadeias de valor e a diversificação dos mercados. Tanto mais que a dimensão da nossa economia torna possível que, mesmo num cenário de algum arrefecimento da procura global, pequenos aumentos de quota de mercado à escala mundial se traduzam por acréscimos significativos dos volumes exportados pelas empresas portuguesas.

Transformemos, pois, em oportunidades as atuais ameaças à internacionalização.

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