Intuições erradas

A intuição e a ciência económica nem sempre convivem bem. Esta semana, por exemplo, falou-se nos pagamentos, do Estado, aos laboratórios privados à conta dos testes covid. Tanto bastou para logo se aventar que o Estado deveria integrar essa capacidade no SNS. A ajudar nessa argumentação estavam desde os custos mais baixos apresentados por um hospital, até aos lucros extraordinários de dois desses laboratórios. "Fazer dentro fica mais barato, porque não tem de se dar lucro aos outros" é a intuição. Ignoremos a hipótese de se estarem a comparar alhos com bugalhos no que toca aos custos: estes variaram ao longo do ano - a comparação haveria de ser feita em datas iguais; os custos totais integram não apenas os custos variáveis, mas também as amortizações. Ainda assim, subsistiria uma perplexidade: se aquela afirmação fosse correta, qual a razão para as chamadas "cadeias de valor" serem tão fragmentadas, constituídas por um grande número de agentes especializados, relacionados entre si por contratos de compra e venda sucessivos? Não acredita que todos eles sejam incompetentes, pois não? Especialização e compra e venda são algumas das palavras-chave. A primeira, permite uma eficiência e eficácia que originam custos mais baixos. A compra e venda pressupõe mercados e concorrência, porventura globais, mas também agentes informados e com capacidade de negociar. Tudo conjugado, resulta que quem compra o faz a um preço (integrando o lucro de quem vende) mais baixo do que se produzisse internamente.

Antes de se desatar a construir capacidade interna, fazendo investimentos em instalações e equipamento e no recrutamento de pessoal, originando custos irreversíveis, talvez seja de investir na criação de equipas especializadas que saibam comprar bem. Uma recomendação adicional: não ser uma equipa única. A centralização, pretensamente eficiente, tem-se revelado uma fonte de desperdício já que as realidades, por exemplo regionais, são distintas. E, havendo várias, há com quem se comparar. Se tirarem consequências, o contribuinte agradece.

Economista e professor universitário


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