Opinião

Inventores procuram financiamento para evitar violações. Não está fácil

Rape-aXe
Vince Leskowich

Tem sido um desafio encontrar investidores para a produção do Rape-aXe, um dispositivo patenteado que pretende desencorajar a violência sexual

Quando a última temporada de “A Guerra dos Tronos” estreou, em Abril deste ano, circulou a imagem de uma campanha de angariação de fundos na plataforma GoFundMe para construir uma rampa para Bran Stark poder sair do pátio. A imagem mostrava que já tinham sido angariados mais de 89 mil dólares para esta causa obviamente falsa, e isso deixou Vince Leskowich estupefacto.

Há três anos que este norte-americano de Nova Jersey está a tentar financiar a produção de um dispositivo no GoFundMe, e de 310 mil dólares de objectivo conseguiu apenas 7553 dólares, angariados por 391 indivíduos. A campanha por Bran Stark era falsa, mas há muitas causas estranhas ou frívolas que conseguem financiar-se nestas plataformas. “Vejo pessoas que conseguem 150 mil dólares para levar um cão da China para Chicago para uma operação. Estão a brincar?”, disse-me ele, agastado. “Preocupam-se mais com um cão que com milhões de mulheres que podemos ajudar?”

É que o produto que Leskowich pretende financiar chama-se Rape-aXe e é um dispositivo anti-violação. Só a designação arrepia o que seriam potenciais investidores. Ninguém na indústria de dispositivos médicos ou segurança lhe quer tocar. Nem as organizações ligadas ao movimento das mulheres, apoio a vítimas, combate à violência, celebridades ou políticos.

Leskowich não sabe de onde vem a falta de interesse quanto ao dispositivo, mas desconfia. Os investidores são conservadores nestas matérias e não querem ser associados a um produto controverso. Mesmo que as perspectivas de vendas sejam elevadas, quem quer investir num dispositivo anti-violência desta natureza? Não é uma conversa agradável nem se presta a apresentações em slides coloridos.

O Rape-aXe foi inventado pela flebotomista Sonnet Ehlers Bryant, cujo trabalho era tirar amostras de sangue de pacientes em hospitais na África do Sul. Várias vezes por dia, a técnica tirava sangue a vítimas de violência sexual, e as suas histórias marcaram-na profundamente. Uma delas, aterrorizada, disse-lhe “se ao menos eu tivesse dentes lá em baixo…”. Foi isso que lhe deu a ideia de criar um dispositivo flexível, que se assemelha a um preservativo feminino, com filamentos por dentro. Na eventualidade de um ataque, o dispositivo fica agarrado ao violador e só pode ser retirado por médicos, o que significa que o atacante não pode fugir. Vince Leskowich, que ajudou Sonnet no design e patente do protótipo, está na China a tentar montar uma operação de produção que permita vender o Rape-aXe a cinco dólares cada.

“Os responsáveis da indústria são predominantemente homens e dizem-me que nunca fariam isto. Uns porque acham que não há mercado, outros porque têm medo de serem acusados”, explicou Leskowich. “A grande proporção dos homens está em negação em relação às estatísticas das violações.”

O foco estaria nos países em desenvolvimento onde as estatísticas são negras: na Índia, o crime de violação é o quarto mais comum; no Haiti, a violência sexual é tão grave que a organização Médicos Sem Fronteiras a classificou como um problema de saúde pública. Na África do Sul, 40% das mulheres são violadas durante a sua vida.

No entanto, disse Leskowich, o Rape-aXe também seria comercializado nos países desenvolvidos. “Há mulheres que me enviam e-mails a dizer que trabalham no sistema prisional e se sentem em risco todos os dias. Ou num estabelecimento de saúde mental, ou em centros de reabilitação”, contou. Mulheres que vivem em boas zonas da cidade mas trabalham numa má. Mulheres que saem tarde do trabalho. Taxistas. Empregadas de bar. Universitárias que têm medo de ir a festas ou atravessar o campus à noite.

É precisamente no campus da universidade de Berkeley, na Califórnia, que Yasmine Kasra vai liderar neste regresso às aulas uma campanha de angariação de fundos para o Rape-aXe, em conjunção com acções de prevenção e consciencialização.

“É um penso rápido para um problema maior”, disse. “Há uma cultura de violação à nossa volta e tem de haver uma maneira de a combatermos individualmente.” Kasra admite que usar este dispositivo não é algo que se quer fazer, mas vê a necessidade disso numa série de situações. Os críticos dizem que é um dispositivo medieval, horrendo e extremo, algo que Kasra negou: “Não é nada uma coisa extrema. Mais extrema é a violação.”

Apesar de a incidência de falsas acusações ser residual, essa continua a ser uma preocupação central. Os críticos alegam que o dispositivo poderia ser usado como vingança numa relação consensual, algo que tanto Leskowich como Kasra consideram absurdo. “Se um homem está num hospital e diz que não fez nada de mal e foi consensual, isso vai para tribunal como outro caso qualquer”, disse Kasra. Leskowich argumentou: “Se uma mulher quiser vingar-se de um homem, não precisa do Rape-aXe. Pode dormir com ele e ir à polícia e acusá-lo. Há muitas outras coisas que pode fazer para o prejudicar.”

O dispositivo não provoca danos no homem, mas tem de ser removido por pessoal médico. Leskowich não tem dúvidas que vai conseguir levar isto para produção, demore o tempo que demorar. Yasmine pretende espalhar a palavra pelos campus universitários. E vários dos últimos donativos feitos no site são de homens, com o comentário ocasional de que querem ajudar a criar uma ferramenta para as mulheres se protegerem.

É um dispositivo controverso, que não resolve o problema mais amplo da violência contra mulheres. No entanto, a eficácia foi averiguada no terreno pela equipa de Sonnet e Leskowich. Quando fizeram apresentações e deixaram amostras nas favelas da África do Sul, a polícia local reportou que durante as semanas que se seguiram não houve qualquer denúncia de violação. “Sem o Rape-aXe, os violadores sentiam-se no comando, podiam fazer o que quisessem sem repercussões”, disse Leskowich. “Mas o medo do dispositivo mudou isso.”

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