Investir na economia (V)

Pedro Reis escreve sobre as necessidades de investimento para recuperar a economia no pós-pandemia.

Numa fase em que a nível europeu se começa felizmente a falar numa vaga de apoio ao investimento com a devida envergadura para se conseguir relançar a economia, aproveito este quinto artigo (veja abaixo os anteriores) para tentar sintetizar de forma breve dez aspetos que me parece importante levarmos em consideração quando nos debruçamos sobre a temática do investimento; aspetos esses que tenho presentes desde que tive a honra de presidir à Aicep que, como sabemos, tem três vertentes chave de atuação: a captação de investimento, a promoção das exportações (e da internacionalização) e o combate aos custos de contexto.

Assim, face aos guidelines europeus da semana passada, atrevo-me a apontar as seguintes dimensões a considerar no desenho de uma política de fomento ao investimento: a necessidade de se ter uma visão integrada do panorama geral do investimento, a vantagem de se guiar por critérios claros para o priorizar, a importância de se identificar os custos de contexto que é essencial mitigar, a bondade de se agregar parceiros privados ao esforço do investimento público, a incontornabilidade de se ter presente o impacto crescente da agenda verde e digital, a oportunidade da alavanca que certos investimentos cirúrgicos em infraestruturas podem constituir, o benefício que decorre de se perceber em que setores estratégicos se pode captar mais valor acrescentado para as economias europeias e, por fim, a importância de se aplicar a matriz ESG na escolha, no apoio e na monitorização do investimento.

Vamos então a eles:

1. Quando se avança para um programa de estímulo ao investimento, quer a nível europeu quer nacional, é sempre importante ter clara uma visão prévia e abrangente de três equilíbrios em particular sobre os quais se quer conseguir um blending virtuoso: o equilíbrio entre o papel do Estado e o do setor privado (o motor, por princípio, da robustez de uma economia), o equilíbrio a conseguir na aposta entre os vários setores que sempre existem numa economia e, também, o equilíbrio a conseguir e a conciliar entre fomentar o investimento de raiz e o investimento de expansão.

Comentando apenas este último aspeto neste ponto: muitas vezes é mais útil a um país apostar no reforço da cadeia de valor de um ecossistema em que já tem competências instaladas e em que já é um player importante a nível internacional e noutras vezes é preciso arriscar e inovar lançando as bases de novos setores, criando condições para o aparecimento de uma rede de suporte de parceiros devidamente densificada. O importante é acertar e para acertar muitas vezes há que escolher.

2. Sabendo que é utópico considerar se que uma economia, seja ela qual for e tenha ela a dimensão que tiver, terá alguma vez recursos suficientes para apostar em todas as oportunidades de investimento ao mesmo tempo e com a mesma capacidade, há que construir uma grelha de prioridades (e depois manter-se fiel à aposta na mesma ao longo dos anos de desenvolvimento desses mesmos ativos); entre os vários critérios majorantes para avaliar o impacto potencial de um novo investimento, parece-me serem de considerar pelo menos os seguintes indicadores em termos incrementais: competitividade, produtividade, exportações, criação de emprego, Valor Acrescentado Nacional e (indutor de ganhos de) escala (nunca descurando o equilíbrio regional).

3. De igual forma, no que toca ao investimento público na qualidade do nível de serviço a assegurar pelo Estado para ajudar a atrair investimento privado a um país, parece-me recomendável ter foco na escala dos custos de contexto que os investidores externos identificam como aceleradores ou bloqueadores de decisões; da minha experiência há quatro indicadores que aparecem sempre no topo das preocupações dos investidores externos quando avaliam determinada economia: grau de burocracia, celeridade da justiça, flexibilidade do sistema laboral, estabilidade e competitividade fiscal.

4. O mundo de hoje, no que toca à captação de investimento, procura sempre que possível encontrar formas de conciliar de forma engenhosa e construtiva a força dos instrumentos públicos com a agilidade dos promotores privados: estou profundamente convencido de que alianças que desemboquem em capitalização de empresas e de projetos através de fundos de capital de risco são combinações ganhadoras ao combinarem e agregarem o melhor de dois mundos. O melhor investimento que se pode fazer é justamente na inovação a nível das empresas: esse é o investimento que melhor garante as bases de crescimento recorrente no futuro. O Estado pode ajudar, mas devem ser as empresas a concretizar.

5. A economia verde (e esperemos que a azul não tarde) chegou (felizmente) para ficar, pelo que qualquer estratégia de captação e de promoção do investimento tem de dar a maior relevância a aspetos como a descarbonização da economia, a inovação em soluções de tratamento de águas e resíduos de toda a espécie, a agricultura biológica, a mobilidade limpa, as energias recicláveis, a reciclagem eficiente baseada na economia circular ou a eficiência energética entre muitas outras dimensões.

6. De igual modo, a Europa entendeu também dar prioridade máxima ao digital, o que necessariamente obrigará a levar-se em consideração em termos de política de fomento do investimento parâmetros de incentivo à transformação digital das empresas como a robotização e a automação das indústrias, a aposta nos analytics como base crucial de apoio à decisão de gestão, o salto que representa o processamento quântico, a prioridade que significa a cibersegurança, a urgência que compreende o investimento em redes 5G, a autonomia que traz o fabrico via printing 3D, etc. É preciso interiorizar que o futuro já chegou e acelerar.

7. Quanto ao investimento em infraestruturas logísticas que as economias europeias venham a fazer, seria recomendável que se concentrassem no chamado critério last mile, ou seja, que se procurasse descortinar quais aqueles investimentos que têm um valor incremental máximo (com um esforço mínimo por unidade investida) para contribuir para o aumento da produtividade, da competitividade e da abertura de uma economia. Num mundo globalizado, a logística é tão crucial quanto imperial.

8. Na “escolha” de setores estratégicos que necessariamente acabará por acontecer antes de se passar à fase de deployment do investimento, seria aconselhável ter bem presentes dois aspetos simples (mas nem por isso menos verdadeiros) quando se vai investir: primeiro, o de que não é possível acorrer a todas as necessidades sob risco de se desperdiçar todas as oportunidades; e, segundo, o de que, em qualquer economia, há setores particularmente relevantes, nomeadamente aqueles em que um país tem atributos e argumentos que lhe permitem distinguir-se (diferenciar-se) dos outros países no “leilão” violentamente competitivo que alimenta permanentemente o mercado global pela captação de investimento: perceber onde somos bons é meio caminho para nos tornarmos os melhores.

9. Uma nota metodológica: há várias formas de se promover o investimento do ponto de vista público. É sempre bom ter presente que há modelos que protegem melhor a escolha acertada, racional e objetiva dos projetos: tudo o que, em termos de incentivos financeiros e benefícios fiscais, possa ser atribuído (preferencialmente de forma gradual) contra resultados palpáveis e objetivos auditáveis a casos em que já se fez a prova mínima e suficiente de qualidade dos promotores e de racionalidade do business plan de suporte (procurando evidência, por exemplo, de aspetos como o chamado proof of concept e o roll out comercial mínimo quando aplicável) protege a sustentabilidade a prazo das próprias linhas de apoio ao investimento (em termos de funding) permitindo a sua recuperação, direta ou indireta via aumento de receita fiscal por crescimento da economia, e assim a sua regeneração (no sentido de reativação ou mesmo reutilização) de forma a conseguir-se apoiar mais projetos em sucessivas vagas ao longo do tempo com base nos mesmos fundos “originais” (no que toca à parte reembolsável do incentivo).

10. Neste “novo normal” que se vai instalando, é altamente recomendável e aconselhável que se apliquem os critérios ESG a cada vez mais realidades e, desejavelmente, a todos os investimentos (nomeadamente aqueles que se candidatam a obter apoios públicos): cuidar que determinado projeto acautela os melhores princípios e as mais exigentes boas práticas em termos de cuidado ambiental, em termos de impacto positivo na comunidade e em termos de critérios éticos imaculados não é apenas o ideal, é mesmo o imprescindível (nomeadamente depois de tudo o que passámos...).

Leia aqui os artigos anteriores do mesmo autor:

Proteger a economia (I)

Reinventar a economia (II)

Blindar a economia (III)

Relançar a economia (IV)

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