Investir na Web Summit é estúpido ou faz sentido?

É dos poucos assuntos que conseguiu a proeza de interromper a ópera bufa da nossa política nacional: a Web Summit. Sendo mais rigoroso, os resultados da Web Summit na economia nacional, já que o que se passa lá dentro nunca dá sumo para notícias. Os resultados sim, são escrutinados ao pormenor e na maioria das vezes chumbados. Fica sempre a ideia de que correu mal, foi fraquinho, ficou aquém da expectativa, não justificou os milhões que lá gastámos. É o exemplo mais redondo da nossa miopia económica.

Há dois ângulos recorrentes nesta conversa: o dos céticos summitianos, que tanto desdenham o evento por inveja (não se sentem convidados) como o odeiam por ideologia (acham que é uma demonstração fútil do novo capital). E o dos deslumbrados digitais, no extremo oposto, que se estendem no chão à passagem destas novas estrelas de rock, que há meia dúzia de meses eram só nerds com camisolas de lã.

Eu limito-me a admirar os resultados estrondosos que o evento traz para o país. Falando só do que conheço com certeza absoluta - alguns resultados na restauração acabadinhos de sair da caixa registadora -, o que me impressiona nem é o pico de clientes que o evento cria em plena época baixa (coisa que por si só é única). Impressiona-me o ticket médio da comida subir em muitos sítios 15%. Impressiona-me o ticket médio das bebidas subir 10%, 20% e, em alguns casos, 30%. Impressiona-me o número de eventos paralelos que começaram a fazer-se nas mesmas datas (alguns com o pormenor anedótico de se apresentarem anti-summit) e que se evaporam no resto do ano.

Impressionam-me, tenho de admitir, as histórias divertidas sobre excentricidades que eram raras por estas bandas e a pulverização de eventos privados em todo o lado, a todas as horas, como só vemos em cidades cinco vezes o tamanho das nossas. Impressiona-me, finalmente e acima de tudo, o ambiente que se cria na cidade inteira graças a um único evento.

Sim, custa 11 milhões de euros. Ou 20 ou 23, se incluirmos todos os custos que os tais céticos lhes querem despejar em cima. A última campanha do Turismo de Portugal custou 10 milhões, para dar apenas um exemplo (que serve o mesmo propósito de promover o país), entre dezenas e dezenas de iniciativas públicas, iguais ou maiores, com resultados "não-mensuráveis".

Ah, mas este ano teve menos espectadores do que o esperado, não criou tantos empregos, não se fala lá fora, não se repercute no IVA... continua o bota-abaixo. Que é um rol bem conhecido de argumentos, porque é o mesmo que critica o turismo reduzindo-o aos resultados combinados dos hotéis + TAP + uns pozinhos de restaurantes e comércio. Ignorando de propósito as toneladas de benefícios indiretos desta indústria no imobiliário, na construção, na produção de móveis, no vinho, nos sapatos e, cereja em cima do bolo, na reputação do país.

Quem não consegue perceber o benefício de ver o responsável pela tecnologia da maior empresa tecnológica do mundo aqui mesmo, em Lisboa, divertido e a beber uma garrafa de vinho português com potenciais novos residentes e investidores no país, não quer levantar a cabeça apontada ao umbigo depressivo.

No dia em que tivermos a coragem de ser um país de anfitriões e deixarmos de ter vergonha de não sermos um país de industriais, tudo fará mais sentido. E sim, seremos mais ricos.

Presidente e diretor criativo do Time Out Market

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