Isto agora com a covid…

"Isto agora com as redes sociais" é uma expressão recorrente, mesmo sabendo que a mãe de todas as redes, o Facebook, já existe há mais de 15 anos. A boa notícia é que o "isto agora com a internet" já se vai ouvindo menos, para descanso de Tim Berners-Lee que criou a World Wide Web em 1992.

Em destaque, temos agora o "isto agora com a covid", que se tornou numa espécie de introdução omnipresente, desde conversas de café a reuniões de conselho de administração. Faço parte do grupo minoritário dos que não sabem quanto tempo é que "isto agora da covid" vai durar, não tendo certezas de como se resolve, e continuando a achar que as autoridades competentes poderão saber mais do que eu sobre o assunto. Até mesmo as autoridades incompetentes, provavelmente, saberão mais do que eu e terão acesso a especialistas e a informação mais fidedigna. Este exercício de humildade, que pode ser confundido com ingenuidade, parece-me importante para conseguirmos viver este período com alguma serenidade e aproveitar o efeito catalisador para discutir medidas estratégicas e críticas para o futuro do país, em vez de papaguearmos gráficos de infetados, ou apoiarmos fanaticamente o virologista A contra o infetologista B.

Um dos temas que deviam entrar em força no debate público é o da utilização de dados para o bem comum. Infelizmente, esse tema tão relevante para o nosso futuro, tem sido minado por uma certa histeria. Com "isto agora com a covid", ao abordar o assunto dos dados aparece sempre um nervosinho a acenar com o fantasma Orwelliano do 1984 ou alguém escandalizado porque na entrada para o emprego lhe pediram para medir a temperatura. A segurança e privacidade dos dados é um assunto sério, mas não deve ser o ás de trunfo que corta todas as vazas deste debate.

O mundo empresarial já há muito percebeu o poder dos dados e na última década tem vindo a investir intensivamente em recursos, humanos e tecnológicos, que permitem transformar os dados em informação valiosa e capaz de suportar melhores decisões de negócio. No espaço de poucos anos surgiram novas profissões como data analyst, data scientist, data engineer, data architect, entre outros nomes sonantes que brilham no linkedin, e novos softwares de data analytics e de intelligence, cada mais acessíveis e focados na grande missão: recolher e integrar o maior número de dados possível, analisá-los, e transformá-los em informação que permita alimentar processos de decisão e de gestão, os famosos insights. Por este mundo fora, várias empresas de telecomunicações já há anos que agregam e vendem dados de mobilidade, permitindo saber quantas pessoas em média passam na zona X, nas várias bandas horárias, uma informação muito útil para empresas que estejam a selecionar a melhor zona para abrir ou expandir um negócio. Calma, senhores que não gostam de medir a temperatura, os dados são agregados e anonimizados, a privacidade não está em risco. O mesmo exemplo também se aplica, a empresas de serviços financeiros (como cartões de crédito) que já conseguem recolher e vender um conjunto de dados transacionais muito relevantes para várias empresas. Há um longo caminho pela frente, e tudo indica que a democratização de processos de machine learning venha contribuir para um desenvolvimento ainda mais acelerado de todo esse ecossistema de dados.

No mundo das instituições, e do governo, vemos cada vez mais países a definir a utilização de dados para o bem comum como um objetivo estratégico e prioritário. Nalguns casos já vem de trás, como os Estados Unidos que criaram em 2009 o portal data.gov. Em 2010 o Colorado foi o primeiro estado, e Nova Iorque a primeira cidade, a nomear um chief data officer, e em 2013 todas as agências federais foram obrigadas a publicar dados abertos. Em 2015 nomearam um chief data scientist a nível nacional. A Dinamarca definiu recentemente uma estratégia nacional para lidar com os avanços da inteligência artificial onde reflete a visão do governo: "A Dinamarca deve ser pioneira no desenvolvimento responsável e no uso de inteligência artificial". Um exemplo mais próximo, França, implementou em 2019 um programa de experimentação de utilização de inteligência artificial na administração pública onde reforçam que "o estado Francês tem que abraçar o potencial da inteligência artificial integrando-o na entrega das suas missões e com o objetivo de proporcionar um melhor serviço ao cidadão".

Em Portugal, a Câmara Municipal de Lisboa, criou em 2016 o cargo de chief data officer, e em 2018 foi lançado o Dados.Gov, portal de dados abertos da Administração Pública portuguesa, que reúne toda a informação disponibilizada por autarquias, ministérios e outros organismos públicos. São sinais positivos, mas parece-me curto. "Isto agora com a covid" era um excelente momento para nascer uma visão, uma estratégia a nível nacional, que não dependa de eleições, e que suporte o objetivo de garantir que os dados são efetivamente usados suportar melhores, e mais transparentes, decisões para a gestão do país e para prestar melhores serviços aos cidadãos. Uma cultura de dados não se resolve por decreto, são precisos recursos, os tais humanos e tecnológicos. Os tecnológicos existem, os humanos contratam-se. Imagino uma estrutura alargada, com equipas de especialistas em dados espalhadas pelos vários ministérios e instituições públicas, coordenadas por uma equipa central liderada por um chief data officer de topo. Com vontade, investimento, e excelentes profissionais na área de tecnologia que temos em Portugal, arrisco dizer que conseguiríamos em poucos anos ser reconhecidos na Europa, e no Mundo, como um dos países que melhor produz informação pública de qualidade baseada em análise de dados. Melhor do que o reconhecimento, seriam os resultados tangíveis e o efeito bola de neve: mais dados, mais informação, melhores decisões, mais eficiência, maior transparência, comunicação mais rigorosa, melhor democracia.

Que falta fará essa transparência no momento de darmos as boas vindas aos euros da bazuca. E que jeito daria essa eficiência para lidar com os dados da pandemia. No momento em que escrevo este artigo, o Reino Unido acaba de comunicar que devido a um erro no Excel o SNS britânico deixou passar ao lado cerca de 16 mil infeções de covid-19. Os responsáveis do Public Health England usaram um formato de ficheiros Excel mais antigo (XLS em vez de XLSX) que não suportava tantas linhas de dados. Parece para os apanhados, mas infelizmente não há câmaras escondidas, só alguma vergonha alheia a espreitar.

Fico a torcer para que "isto agora com a análise de dados" se torne, rapidamente, a expressão da moda.

André Dias é managing partner na Mapidea

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