Já estamos atrasados!

Já foi dito, e redito, que o PRR é vago e menos ambicioso do que seria desejável. A sua execução a tempo e horas, sem desvios, com transparência é, agora, o mínimo que se pode exigir. O enviesamento a favor das administrações públicas é um falso problema: se os privados forem capazes de executar o seu quinhão de forma não conformista, o futuro será diferente. Se o conseguirem, ganham estatuto para reivindicar um PT2030 mais ao jeito da iniciativa privada.

Os problemas podem vir não tanto do montante dos fundos, mas de uma política bipolar. De um lado, o "Portugal dos pequenitos", a obsessão com a prioridade às "micro, pequenas e médias empresas". As grandes empresas, de preferência monopolistas, são boas se forem (ou para serem) nacionalizadas. Ou então, o outro extremo, se forem "parceiros", à custa de dinheiros públicos, de um daqueles projetos míticos que nos hão de dar protagonismo e tirar da pobreza. Alguns chama-lhe o "complexo do carrilhão de Mafra": o maior do mundo, de pouco uso e ainda menor utilidade. Se o PPR vier a ser consumido nesta lógica (muitos projetos pequeninos, para contentar o maior número, tendo como contrapartida um ou dois "projetos bandeira", para encher o ego político), até as estimativas de crescimento atual serão otimistas. É mais do mesmo.

Ainda que as opções sejam outras, as coisas continuam a poder correr mal. Há demasiados organismos públicos que nunca perdem uma oportunidade para fazer prova de vida e se arrogarem o estatuto de "cavaleiros brancos" da pública virtude. A necessidade de transparência dá-lhes, no seu entendimento, argumentos adicionais. Pior do que a burocracia é a redundância, geradora de rivalidades espúrias e indutora de incerteza quanto ao tempo da decisão. Somar à incerteza inerente ao negócio, a decorrente do processo de seleção e aprovação dos projetos, pode ser fatal. Nesse sentido, se o PRR não for uma oportunidade para depurar a estrutura estatal, rever procedimentos e dotar os organismos das pessoas e competências necessárias, será difícil fazer diferente. Já estamos atrasados!

Economista e professor universitário


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