Opinião

Jawline, ou a febre do ouro social

austyn tester jawline

Um novo documentário levanta a cortina sobre aqueles que procuram fama como influenciadores e quem os segue nas redes sociais

“O talento é substituível”, ouve-se em fundo, enquanto um adolescente sobe para o autocarro da escola. “Essa é a natureza do negócio.” A voz de Michael Weist, um imberbe gestor de talento que enriqueceu à custa da explosão dos influenciadores, ecoa nas imagens finais do documentário Jawline, que estreou este fim-de-semana no Hulu. O trabalho de Liza Mandelup segue a busca pela fama de Austyn Tester, o adolescente que no final sobe para o autocarro da escola numa espécie de conclusão falhada da sua missão.

Quando Liza começou a gravar este documentário, há três anos, Austyn era um miúdo de 16 anos a viver em Kingsport, uma comunidade rural do Tennessee. O filme acompanha os seus esforços para conquistar seguidores nas várias redes sociais, em especial na YouNow, onde faz transmissões ao vivo quase diariamente. Numa das cenas, recebe um pagamento de 46 dólares pelo seu trabalho no último mês. “Nada mal”, avalia. A fama é a sua única saída de uma vida pobre, numa cidade onde não acontece nada e onde as oportunidades são parcas.

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As transmissões que faz baseiam-se em mensagens de optimismo e positividade, onde elogia constantemente as suas fãs. Entre as que aparecem num “meet and greet” com ele no centro comercial local, uma conduziu duas horas para estar ali e ver o seu ídolo ao vivo.

Parte de Jawline é dedicada a desconstruir a imagem frívola das raparigas que compõem o grosso da base de fãs destes influenciadores. Além de Austyn, são mostrados outros rapazes que estão a fazer carreira nas redes sociais – os gémeos Julian e Jovani Jara, que formam a dupla 99 Goon Squad, Mikey Barone, Bryce Hall. As miúdas gritam, tremem, choram, esperam horas em filas, abraçam-nos como se estivessem a agarrar-se à vida, gastam centenas de dólares para terem acesso aos eventos com eles. O que poderia ser catalogado como histeria adolescente de miúdas sem mais nada para fazer revela-se algo muito diferente. Uma vive com a tia, porque a mãe está presa e o pai é ausente. Outra sofre bullying na escola. Outra tem ansiedade e corta-se. Muitas vêem nestes rapazes online aquilo que não têm na sua escola nem na vida de casa: alguém que lhes fala de sonhos e aceitação, alguém que lhes pergunta como correu o dia, alguém que as encoraja a terem orgulho em si próprias.

As bolhas de fama que surgem são, portanto, efémeras. Depressa estas miúdas vão crescer e encontrar outras formas de lidarem com os seus problemas. O espaço que estes influenciadores preenchem nas suas vidas tem um prazo de validade. E isso é reconhecido por Michael Weist, agora CEO da Juice Krate Media, na altura CEO da Good Times Entertainment. Fala de forma pragmática e desconcertante de como o seu trabalho é empacotar estes jovens numa marca pessoal, espremer o dinheiro que há a espremer deles, e quando passam o prazo de validade encontrar outros para fazer o mesmo, de forma a ter sempre os bolsos cheios de dinheiro.

Weist, ao contrário da maioria dos gestores de talento que há por aí a capitalizar nos influenciadores, é da mesma geração que eles. Começou a fazer isto aos 17 anos e hoje tem 23. Fala a sua linguagem, entende o seu público, não é um espertalhão de 40 anos que decidiu mudar de carreira para ir na onda. “Estamos na febre do ouro das redes sociais”, diz no documentário. O seu propósito é garimpar enquanto pode, porque sabe que o mercado é volátil. Essa consciência é ainda mais premente no final do filme, quando decide focar-se mais em criadores de conteúdos que influenciadores. Ele mesmo acaba por questionar a validade dos influenciadores que não fazem mais nada a não ser viver em frente às câmaras com o penteado da moda, a t-shirt Gucci e as feições apelativas para miúdas de 13 anos.

Jawline é um exercício fenomenal de reflexão e empatia com a geração que procura a fama e o que os seus sucessos e insucessos provocam numa idade tão tenra. É também um levantar da cortina sobre as fãs que, numa determinada idade, entram e saem desta cultura de influência em busca de algo maior. A pressão sobre quem atinge a fama cedo é grande, principalmente quando recebem centenas de mensagens de miúdas a falarem da sua depressão e circunstâncias, colocando neles a responsabilidade da sua salvação.

Para quem está de fora a tentar entrar, como Austyn Tester, os efeitos podem ser devastadores. Como ver o oásis ali tão perto, sem lhe poder tocar, morrendo de sede num deserto adolescente onde nada mais parece fazer sentido.

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