Jogar na raspadinha é dar o pão a 1 milhão de portugueses

A frase "beber vinho é dar o pão a 1 milhão de portugueses" nasceu no âmbito de uma campanha realizada nos anos 30 do século passado destinada a promover os produtos nacionais, à semelhança do que aconteceu, na mesma época, em países como o Reino Unido e os EUA com as iniciativas "Buy British" e "Buy American".

Tudo isto faz sentido numa ótica de defesa da agricultura e indústria nacionais. Aliás, campanhas deste tipo são recorrentes, dado o impacto positivo em termos de produção interna de riqueza, equilíbrio da balança de pagamentos e, last but not least, criação de emprego. O que, e voltando à campanha "beber vinho", significaria que a economia do setor vitivinícola teria, nessa altura, um efeito direto e indireto sobre a geração de postos de trabalho que assegurariam a subsistência de cerca de um milhão de pessoas.

Saber se esse número está correto ou não ficará para outra altura esclarecer, pois o que torna tristemente célebre aquela frase é que ela está ligada a intenções menos nobres. É que o consumo excessivo de vinho dava não só para anestesiar o povo - fazendo-o esquecer as condições sociais, políticas e económicas que o Estado Novo lhe impunha -, mas tinha também a grande "vantagem" de ser aditivo. E, como é óbvio, por mais justa que seja a causa da criação de emprego, fazê-lo à custa da promoção de um vício é, no mínimo, muito pouco digno.

Infelizmente, tudo isto me faz lembrar o projeto de lançamento da nova lotaria instantânea destinada a financiar o património cultural. Com lançamento previsto para 18 de maio, trata-se de uma iniciativa do Governo em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a entidade que em Portugal detém o monopólio deste tipo de jogos de fortuna ou azar.

Somos o país da União Europeia que mais gasta nesse tipo de jogos. Sabe-se também que se trata de apostas altamente viciantes que afetam principalmente as classes de menor rendimento. A dependência criada pela raspadinha resulta do facto de, como o comprovam vários estudos, ser rápida, barata, fácil de comprar e não ser necessário entender o jogo.

Sei que a defesa do património cultural deve ser um desígnio nacional. Mas será que vale tudo? Será que é correto fazê-lo à custa de um vício? E, principalmente, será digno estar a alimentá-lo sabendo que é uma chaga social?

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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