Jogo de cintura e seleção natural - o desafio para 2021

Há uma instabilidade transversal no momento que atravessamos: na saúde, com a incerteza da chegada de uma milagrosa vacina, na educação, sem sabermos se as portas das escolas e universidades voltam a fechar, no consumo em geral, por não sabermos se teremos um Natal próximo daquele que é o nosso "normal"... São muitas questões que nos levam a encruzilhadas e dúvidas diárias - na vida pessoal e no mundo empresarial.

Tenho para mim que o momento que se segue, e que muitos dos profissionais já estão a passar, é de combate à incerteza, passando as certezas e projeções do ano de 2021 para o papel. Mas teremos nós certezas suficientes para projetar um ano completo? Quantos planos e orçamentos são adequados a esta situação? Se um seria a resposta normal, dois - com um cenário ideal e um cenário mais negro - pode ser também aceite, mas, no meu entender, a resposta certa é "vários". Ou então, que não se façam grandes previsões mas sim uma janela (bem larga) de possibilidades e realidades para o que este próximo ano nos trará, alinhado com o conceito-chave destes últimos e próximos tempos - rápida capacidade de adaptação.

A economia global está demasiado volátil num momento como este. As mais pequenas movimentações de vacinas ou de medidas restritivas fazem abanar as bolsas de todo o mundo - a 9 de novembro, depois de anunciarem que a vacina tinha mais de 90% de eficácia, a BioNTech e a Pfizer viram as suas ações subirem 13,9% e 7,7%, respetivamente, o que são variações significativas. Ainda há uns meses estavam as grandes bolsas a sofrer quebras na ordem das duas casas decimais por dia, consecutivamente, para, nas últimas semanas, assistirmos a uma viragem do cenário quando se cogitou em torno de uma taxa de eficácia altíssima de vacinas para vencer o vírus que tanto nos tem feito repensar tudo o que fazemos. E a realidade do mundo é esta: volatilidade e incerteza para construir planos a curto ou longo prazo.

É necessário ter a tal janela larga nas nossas empresas e, tenham elas o tamanho que tiverem, o mais importante é estarem de boa saúde económica para aguentar a indefinição. Acredito piamente que a capacidade das empresas para se adaptarem ao que o mercado lhes traz será o grande segredo.

Vamos estar todos no mesmo barco, à espera de um farol que nos indique o caminho e, enquanto isso não acontece, só nos resta ter consciência que um plano que hoje é infalível, amanhã pode não ter enquadramento. Se antes se dizia que o mundo estava para os espertos, agora o mundo está para os ágeis e mais reativos.

Como profissional de marketing, depois de tanto ouvir e ler que as empresas que melhor saem das crises são aquelas que mantêm uma voz ativa durante a dita crise, tenho a ligeira sensação que quase todos os setores em Portugal já pensam que, por muita vontade que tenham de se manterem ativos, a capacidade de investimento para o fazer está limitada e vai-se esgotando por não haver tanto income que permita que uma parte dos resultados da empresa seja convertido em orçamento para marketing e comunicação.

A esperança é que Darwin não tenha razão neste aspeto e que a seleção natural não seja visível no tecido económico português. O dinheiro circula das nano às grandes empresas - não necessariamente por esta ordem, ainda que o maior fluxo possa ser - e só com este a mudar constantemente de mãos e em movimento é que vamos ter capacidade e estar preparados para enganar Charles e a sua teoria.

Marketeer

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de