Juros em euros ou em escudos?

Pelo empréstimo dos nossos parceiros europeus
que vem através do EFSF, Portugal paga atualmente uma taxa de juro
de 3,2%. Objetivamente, não é alto, tendo em conta quer o tamanho
da nossa dívida quer os custos de financiamento na Europa. Ao mesmo
tempo, qualquer décima a menos na taxa de juro é uma boa notícia.
Reduzir o pagamento de juros devia ser um objetivo consensual no
país, e nenhum dos argumentos em contrário que ouvi esta semana dos
nossos governantes me pareceu fazer sentido.

Há quem argumente no entanto que, com moeda
própria, pagaríamos menos juros. Então a Inglaterra não paga hoje
uma taxa de juro de apenas 1,8%? E os bancos centrais não fixam as
taxas de juro? Sim e sim. Mas também não, não, não, isto não
implica que iríamos pagar taxas de juro mais baixas se ainda
tivéssemos escudos. Pelo contrário, o mais provável era pagarmos
taxas de juro bem mais altas.

Em primeiro lugar, Inglaterra não é Portugal.
Não tem a nossa dívida, nem a nossa história de défices ou de
não-pagamento de dívidas, nem três programas do FMI em pouco mais
de três décadas, nem as nossas baixas perspetivas de crescimento
económico, nem o risco próximo de sair do euro e não pagar a
ninguém. Vamos antes comparar Portugal hoje com Portugal no passado.
Qual era a taxa de juro entre 1982 e 1984, quando tivemos o último
programa do FMI? Acima de 20%. Qual foi a taxa de juro que pagámos
nos anos 90, antes de adotarmos o euro? Entre 4% e 7,6%.

Já agora, entre 2002 e 2008, os anos do
crédito barato que jorrava da Europa, qual era a taxa de juro na
dívida portuguesa ? Em média, foram cerca de 4%, no máximo 5,4% e
no mês mais baixo, em setembro de 2005, a taxa foi 3,2%. Leu bem, a
taxa de juro de 3,2% que pagamos hoje aos nossos parceiros europeus é
mais baixa do que a taxa de juro na dívida portuguesa em qualquer
mês nas últimas décadas. Não é raro ouvir ou ler comentadores
que primeiro apontam o dedo ao crédito barato de que gozámos depois
da entrada no euro como responsável pela crise, para depois se
revoltarem contra os agiotas da troika e as suas taxas abusivas. Os
factos não são generosos para com este ponto de vista.

Passando para a teoria, porque os bancos
centrais podem criar ou fazer desaparecer dinheiro eletrónico, eles
podem controlar quase perfeitamente as taxas de juro em empréstimos
com durações desde um dia a um mês. O valor de 0,75% anunciado
pelo BCE refere-se a estas taxas. Mas todas as outras taxas de juro
neste artigo eram taxas de juros em euros ou escudos a 10 anos. O
banco central praticamente só afeta esta taxa de juro através da
taxa de inflação. Por cada 1% a mais de inflação esperada em
média nos próximos dez anos, o juro a 10 anos é aproximadamente 1%
maior.

Se tivéssemos escudos em vez de euros, acha
que a nossa inflação seria maior ou menor? A resposta devia ser
óbvia. Logo, com escudos, provavelmente teríamos hoje taxas de
juros maiores. Sair do euro não é uma forma de baixar as taxas de
juro.

Professor de Economia na Universidade de
Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

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