Opinião

Keynesiano só quando dá jeito…

John Keynes
John Keynes

Onde estão os ditos keynesianos que agora deveriam defender um verdadeiro superavit e não um ligeiro saldo positivo a saber a poucochinho?

Lembra-se de quando, no tempo da intervenção da troika em Portugal, ilustres economistas, dizendo-se keynesianos, defendiam políticas expansionistas, contrariando assim as medidas de austeridade então aplicadas? O interessante é que parece que esses mesmos economistas deixaram de ser keynesianos.

Mas comecemos pelo início. John Maynard Keynes é provavelmente o mais importante economista do século XX. A sua teoria influenciou de modo decisivo as políticas que permitiram a recuperação das principais economias mundiais na sequência da Grande Depressão que teve início no crash bolsita de 1929. Políticas que, realce-se, se mantiveram no centro da agenda dos governos durante cerca de cinquenta anos.

A base do seu pensamento é simples: o princípio do equilíbrio orçamental permanente não faz sentido. Pelo contrário, aquilo que o Estado deve fazer é estimular a economia em épocas de recessão (através da redução da carga fiscal e do aumento dos gastos públicos) mesmo que para isso seja necessário incorrer em défices orçamentais. Claro que o grande economista inglês acrescentava que esses mesmos défices deveriam ser compensados por superavits gerados em épocas de expansão.

Desta forma, abandonando o princípio rígido do equilíbrio orçamental, caberia aos governos prosseguir políticas anticíclicas, suportando saldos negativos em tempos de recessão que seriam contrabalançados por excedentes em fases de expansão.

Foi a primeira parte deste raciocínio que esteve na base do argumento de que a austeridade (ou ajustamento, como se preferir) não fazia sentido: aquilo que o país precisava naquela época era de estímulos e não de cortes de despesa e subida de impostos.

O que é interessante é que no momento atual, com uma conjuntura favorável, o Orçamento de Estado tem continuado a gerar défices. Bem, parece que em 2020 o saldo será nulo – ou até, quem sabe, ligeiramente positivo, espantando tudo e todos na linha do que Mário Centeno tão bem sabe fazer não só em matéria financeira como de gestão de expectativas.

Onde estão os ditos keynesianos que agora deveriam defender um verdadeiro superavit e não um ligeiro saldo positivo a saber a poucochinho? É fácil ser-se keynesiano só quando dá jeito…

Vice-Reitor da Universidade Portucalense

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