Opinião

Legitimidade ou radicalismo?

JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA
JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA

Todo o país percebe as dificuldades e a vida dura dos motoristas de matérias perigosas. Já o disse, aqui e em comentários televisivos, que as suas reivindicações são legítimas, desde a primeira hora. As suas condições laborais devem ser revistas e serão, certamente.

O que o país começa a não perceber e a questionar é: onde é que vão parar estas reivindicações?

Os motoristas não escolheram o mês e a semana em que agendaram o protesto por acaso: é aquele em que todo o país se dirige para a estrada para gozar as desejadas férias, seja a norte seja a sul, e com o feriado de dia 15 há ainda mais turistas na estrada. A data escolhida faz com que o impacto nos portugueses e nos próprios media seja plenamente alcançado…

Não se vislumbra diálogo nem consenso. Apesar do ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, ainda acreditar que a bom porto se chegará, os portugueses não estão assim tão otimistas e a prova disso é que esgotaram os jerricãs em todo o país. Os cidadãos assistem e comentam um certo radicalismo que parece apoderar-se do sindicato que reúne estes motoristas, o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas, organização que não é afeta à UGT nem à CGTP.

Hoje assistimos a posições extremadas, de uma entidade independente dos grandes sindicatos, semelhantes às que conhecemos quando foi a greve na AutoEuropa e a greve dos Estivadores. Ontem o presidente da República proferiu uma afirmação que resume o atual sentimento dos portugueses: “Esta greve é contra os patrões, mas também contra o Estado e os portugueses”.

Antes do fecho desta edição cinco transportadoras anunciaram que vão dar entrada com uma providência cautelar, durante o dia de hoje, a pedir a ilegalidade do pré-aviso de greve dos motoristas e dos fundamentos desse pré-aviso de greve. Consideram que há um abuso do direito à greve e da boa-fé, que estava em curso um processo negocial, e o que está em causa é o princípio da proporcionalidade.

A ver vamos no que dá a providência, mas uma coisa é certa: a legitimidade não deveria confundir-se com radicalismo.

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