opinião: Joana Petiz

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Foto: D.R.
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Que argumentos terá a esquerda contra os governos que agirem contra novas greves?

É o governo o seu patrão e o ministro das Infraestruturas não o esquece. Mas não deixa de ser curioso que o jovem turco orgulhosamente pertencente à ala mais esquerda do PS e que foi o homem fundamental de António Costa para negociar e levar até ao fim a geringonça lute com tanta força e empenho contra o direito à greve. Pelo menos quando quem a faz são os motoristas de matérias perigosas, coordenados por um sindicato independente – leia-se não vinculado às velhinhas e politizadas CGTP e UGT.

Não só Pedro Nuno Santos se recusou a negociar com grevistas como chegou a dizer que os governos não negoceiam em tempo de greves ativas. Vem isto da boca do mesmo homem que deseja ardentemente que a solução à esquerda perdure. A verdade é que não surpreende sozinho. Veja-se como a requisição civil, assinada pela terceira vez por António Costa neste governo (em nove vezes que foi invocada nos últimos 20 anos), não provocou grande agitação aos seus apoiantes parlamentares PCP e BE.

Se assim não fosse, não teria demorado tanto a reação às sucessivas tentativas do governo da geringonça de esvaziar uma paralisação de trabalhadores. E não teria chegado em palavras tão brandas. Ao terceiro dia, a agora suave Catarina Martins considerou que a requisição civil “a pedido das entidades empregadoras dos motoristas de matérias perigosas foi um erro” do governo. No quarto dia, o comedido Jerónimo de Sousa disse-se solidário com os motoristas, mas penalizado por os promotores do protesto estarem a “dar pretextos à limitação ao direito à greve”. Quando é que isto se tornou justificável para o PCP? Provavelmente no percurso que levou as esquerdas a não se incomodarem com o facto de um governo aceitar, em tempo recorde, avançar com uma requisição civil pedida pelo patrão de um setor – que é irmão de um adjunto desse mesmo governo e que foi por ele nomeado para gerir dois fundos de 300 milhões de euros.

Isolados e sem quem os apoie, os motoristas optaram por suspender a greve e tentar negociar. O país bate palmas. Resta saber que argumentos terá a esquerda contra os governos que agirem contra novas greves e o que farão outros grupos de trabalhadores quando os seus protestos forem esvaziados. Valha-nos a memória…

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