Lições de liderança dos 2000 anos da Igreja Católica

O professor Javier Fernández Aguado analisa a Igreja Católica como um estudo de caso que se distingue em termos de liderança e inovação, observando a forma como conseguiu espalhar-se globalmente ao longo de milénios e manter o seu séquito de seguidores nucleares com uma gestão inteligente.

Organização singularmente complexa, que foi sendo aperfeiçoada ao longo de mais de vinte séculos, a Igreja Católica é um ilustrativo estudo de gestão - independentemente de qualquer posição ideológica contra ou a favor das suas doutrinas.

Aliás, na Idade Média, as instituições eclesiásticas - como os mosteiros e as catedrais - eram uma espécie de Silicon Valley da sua época, berço e sustentáculo do conhecimento. A história da Igreja está repleta de eventos e decisões que mudaram o mundo para sempre, maquinações e conspirações, disputas teológicas e intelectuais resolvidas a ferro e fogo.

No meu livro mais recente, 2000 Años Liderando Equipos ("Dois mil anos a liderar equipas") [Kolima, 2020], analiso os muitos e variados altos e baixos da Igreja Católica, do ponto de vista da gestão, e reflito sobre a capacidade da instituição - através de concílios, conclaves, cismas e conflitos internos e externos - de se reinventar sem abdicar da sua atividade de base.

Uma boa parte do seu êxito deve-se não só à sua inovação e liderança, mas também à sua persistência no cumprimento da missão de melhorar a vida dos outros, mais especificamente, proporcionando-lhes a salvação. A Igreja ofereceu-nos uma grande riqueza de conceitos de liderança, fornecendo-nos algumas das melhores mentes da história, tanto ao nível teórico como prático: Agostinho de Hipona, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Domingo de Guzmán, Albertus Magnus, Tomás de Aquina, Thomas More, Francesc Moragas, José María Arizmediarrieta, Romano Guardini, Pedro Poveda, Karol Wojtyla e Josef Ratzinger - só para referir alguns.

Da mesma forma que o mundo da gestão - ou, pelo menos, das escolas de gestão do mundo inteiro - tornou Bill Gates, Sheryl Sandberg, Jack Ma, Elon Musk e Amancio Ortega nomes familiares na atualidade, a Igreja Católica proporcionou-nos o seu próprio rol de personagens únicas e famosas, cujas lições ainda hoje se aplicam. O alegre Filipe Néri, Segundo Apóstolo de Roma, era literalmente conhecido por ter um coração aumentado e por ter fundado a Congregação do Oratório, que se centra na caridade. O Papa Sisto V era ambicioso e uma pessoa cheia de grandes ideias - algumas, talvez, até, demasiado grandes -, e a tenaz mas sensível Maria Rosa Molas foi louvada por instituir uma ordem dedicada às mulheres e aos marginalizados.

Para além desta primeira ideia do líder carismático, a Igreja Católica aplicou muitos conceitos inovadores que ainda hoje estão em prática, mas com denominações como gestão provisória, employer branding, fake news, deep news e VUCA. Aliás, os nossos antepassados foram os grandes inovadores.

Nenhuma outra instituição teve uma influência tão capilar, durante tantas décadas, como a Igreja Católica. Os seus missionários subiram aos cumes mais altos e chegaram às regiões mais remotas da floresta Amazónica com a intenção de melhorar as vidas dos outros, tanto no sentido material como no sentido espiritual. Nenhuma outra empresa gerou um compromisso comparável ao das centenas de milhares de seguidores da Igreja Católica, capazes de abdicar de tudo pela sua fé. Por fim, nenhuma outra instituição sofreu e suportou tantas perseguições, muitas nascidas do ódio e perpetradas por movimentos, desde o nazismo ao comunismo. Esses ataques falharam, porque os membros da Igreja Católica têm um espírito de lealdade e resiliência que seria alvo de inveja de qualquer instituição dos tempos modernos.

É certo e sabido que a Igreja Católica não pode negar o seu próprio comportamento tantas vezes questionável e algumas vezes, até, simplesmente criminoso, como atestam as más ações de Marcial Maciel e Karadima. Além disso, certas organizações com características sectárias no seio da Igreja utilizaram a religião como fachada para os seus interesses ocultos - e semearam a dúvida acerca de outras da instituição. Contudo, a par do comportamento condenável de alegados revolucionários como Lutero, Calvino, Henrique VIII e Zwingli, não faltam exemplos de líderes inspiradores e entusiasmantes, capazes de orientar inúmeras pessoas por caminhos criativos.

Como já expliquei em ¡Camaradas! De Lenin a Hoy ("Camaradas! De Lenine aos Dias de Hoje") e El Management del III Reich ("A Gestão do Terceiro Reich"), os manipuladores do mundo (e já vimos muitos, incluindo Estaline, Lenine, Mao, Hitler, Pol Pot, Allende, Pinochet, os irmãos Castro, Maduro, Stroessner) sempre procuraram satisfazer apenas os seus próprios interesses, impondo os seus caprichos, construindo as suas riquezas e vivendo melhor do que e às custas dos outros. E, muito embora a Igreja Católica tenha acolhido - e continue a acolher - manipuladores, não há como negar o número de líderes que nos trouxe, desde Roberto de Molesmes até João Paulo II. É evidente que os líderes também cometem erros - ambos os líderes católicos citados tinham as suas falhas, mas, tanto quanto se sabe, os seus atos nunca foram intencionalmente maliciosos nem cometidos com intuitos egoístas.

A história nem sempre se repete, mas rima frequentemente, o que significa que, hoje em dia, liderar e governar as pessoas pode implicar uma coabitação de paradigmas admiráveis e repreensíveis. As aventuras de Charles de Foucauld, o explorador que se transformou num linguista eremita nos desertos do Norte de África, ou as loucuras do excomungado Girolamo Savonarola confirmam que o mundo sempre foi um lugar turbulento.

As dificuldades provocadas pela distância entre a auctoritas (liderança) e a potestas (poder), não advêm unicamente de forças externas - também são endógenas na Igreja. Tomemos o exemplo de (Santa) Rafaela Maria e da sua irmã, Maria Dolores (Madre Pilar), fundadoras da Congregação das Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Após múltiplos mal-entendidos e querelas internas, as irmãs destituíram essencialmente Rafaela Maria do seu cargo de longa data como Madre Superiora para a substituir por Maria Dolores. No entanto, apesar do tumulto que levou a essa mudança de liderança, a congregação conseguiu chegar aos nossos dias, graças à tenacidade das centenas de mulheres que apoiaram o projeto de oferecer uma educação de qualidade às raparigas.

A competição, o conflito e o tempo fizeram da Igreja Católica uma complexa organização. Com efeito, todas as organizações surgem como start-ups e tornam-se cada vez mais burocráticas, e a Igreja Católica não foge à regra. O segredo para sobreviver a essa evolução é manter a essência e o coração do negócio intacto. Nesse sentido, apesar dos muitos empreendimentos que dela derivaram, a Igreja Católica manteve-se fiel à sua missão. Na verdade, dois milénios após a sua fundação, num mundo já em processo de ficar para sempre alterado pela pandemia, a Igreja continua a fazer sentido - e talvez isso se deva, em grande medida, ao facto de ter mantido um discurso inabalavelmente centrado na liderança servidora.

As organizações contemporâneas fariam bem em seguir o modelo de liderança da Igreja Católica fundamentado pelos seus dois mil anos de experiência. Poderia muito bem ajudá-las a ter um desempenho mais eficiente, tanto a nível económico como social, e a fazer um mundo melhor.

Javier Fernández Aguado, Director da "laCaixa" Banking Foundation Management e Chair da IE Business School.

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