Liderança, governance e cegueira deliberada : O caso do Ensino Superior português

O ensino superior em Portugal tem sido atingido por uma série de controvérsias que não o beneficiam (leia aqui o caso da Universidade de Direito).

O que mais me preocupa não é o facto de haver problemas. Estou mais preocupado com a natureza dos problemas e, ainda mais, com as respostas das lideranças.

A minha experiência no Reino Unido mostra que, em casos semelhantes, há reviews imediatas por parte de pessoas com garantias de independência; os resultados são rápidos e tornados públicos; e são implementadas mudanças de liderança e políticas, se for caso disso.

Em Portugal, pelo contrário, os dirigentes saem imediatamente a terreiro sugerindo que se trata de um caso isolado, de "maçãs podres" (com isso desvalorizando o problema, mesmo antes de o investigarem exaustivamente); ou então, afirmam sem pudores que nunca tiveram conhecimento de nada.

Isto é sério. Muitas destas pessoas são pagas para dar o exemplo, para estarem atentas e para instigarem uma cultura ética e responsável. O chamado "tone from the top" fica em causa quando, por exemplo, há queixas sobre a conduta de mais de 30 professores numa determinada instituição, ou quando um grupo de professores seniores decreta diferentes padrões de conduta no que respeita à liberdade de expressão dos professores, do que aqueles a que se obrigam a si mesmos.

Isto deixa os líderes sob luz fraca. Não só os dirigentes revelam estar desligados da realidade concreta das instituições que dirigem (e sabemos como tantos líderes em Portugal são vaidosos, preferindo a cerimónia e a imagem ao confronto dos problemas concretos), mas quando confrontados com os problemas, preferem ficar cegos aos mesmos. A chamada cegueira ou ignorância deliberada (willful blindness/ignorance) é um problema na sociedade portuguesa: é o problema, antes dos problemas. Este "olhar para o lado" e receio de confrontar o statu quo disfuncional aconteceu no BES, na PT, em clubes de futebol, em câmaras municipais e em muitíssimos outros setores. Não são coisas raríssimas. Se é que me faço entender.

As reações que tenho visto de pessoas ligadas a estas instituições são reveladoras. Logo salta o corporativismo em todo o seu esplendor para o LinkedIn e meios de comunicação. Figuras proeminentes das instituições apressam-se a defender a corporação mesmo antes de existir qualquer conclusão para investigações em curso. Todos estes indivíduos, sem exceção, dizem que nunca experimentaram culturas tóxicas, nem ligações a partidos ou algo do género - mas sempre vão dizendo que problemas todas as instituições têm - e "quem nunca pecou que atire a primeira pedra". business as usual, portanto. Do regulador do setor, pouco ou nada se sabe.

Às vezes, os problemas são levantados tarde e a más horas, porque uma boa parte de nós prefere olhar para o outro lado, ignorar sinais. Isto é especialmente preocupante quando os guardiões destas organizações, conselhos de administração e equipas de gestão são os primeiros a ignorar os problemas.

Esta cegueira deliberada por parte dos líderes tem de acabar. Esta é uma das razões pelas quais muitos têm a sensação de que em Portugal "tudo está sempre mais ou menos igual". Este apego ao statu quo intriga-me tanto quanto me perturba. Gera complacência. Não é por acaso que os nossos líderes estão décadas à frente das instituições, sem qualquer renovação. Das universidades aos sindicatos, dos hospitais às IPSS, dos partidos aos clubes desportivos. É normal que, com lideranças longas e fraca governance que as motive a sair da zona de conforto, prefiram ignorar os problemas e estes se perpetuem. Às vezes têm bons resultados. A maior parte do tempo tem resultados sub-ótimos. Outras vezes, desastrosos.

Há falta de liderança próxima, atenta e decisiva. Há uma falta de governance exigente que impulsione este tipo de liderança no Ensino Superior (e noutros setores) em Portugal.

A qualidade do governance e das lideranças tem de ser uma exigência não apenas nas empresas cotadas em bolsa, mas em todas as instituições em Portugal. A começar nas do Estado.

Como diz o velho ditado popular: "O pior cego é aquele que não quer ver."

Filipe Morais, professor de Governance e Reputacao na Henley Business School, Universidade de Reading

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