Edson Athayde

Lisboa, a nova Berlim

Leio em vários artigos de jornais e revistas (em várias línguas, de vários países) que Lisboa tornou-se um imã para criativos de todo o planeta.

Um paradoxo existe quando um conceito alberga uma coisa e o seu contrário. É uma ideia lógica que contradiz algo em si mesma.

Leio em vários artigos de jornais e revistas (em várias línguas, de vários países) que Lisboa tornou-se um imã para criativos de todo o planeta.

Por outro lado, daí para o paradoxo, leio também com frequência (no próprio Dinheiro Vivo, inclusive) as opiniões de criativos publicitários portugueses a dizerem que a única saída possível para quem quer fazer um bom trabalho é o Aeroporto da Portela.

Leia a série Criativos no mundo aqui.

Recentemente, alberguei durante uma semana na minha empresa um simpático casal de dinamarqueses (autointitulados “Os Vagabundos Criativos”). Eles saíram do seu país numa viagem de um ano à procura de estagiar (a troco de comida e hospedagem) em agências que consideram boas, por toda a Europa. Ficaram tão encantados com o ambiente criativo que encontraram em Lisboa que não queriam mais sair daqui, prolongando a estadia em várias semanas.

Todos os dias recebo emails de criativos, com as mais diversas experiências, dos mais variados países, alguns ocupando lugares cimeiros em organizações de prestígio, oferecendo-se para vir trabalhar aqui. Muitos aceitam reduzir os seus ordenados para uma pequena percentagem do que auferem hoje.

Querem viver na tal cidade plena de estímulos, cheia de tribos, cosmopolita, surpreendente, ou seja, experienciar a Lisboa de que se fala lá fora.

Saio muito pouco. Mas quando vou jantar com amigos e calham ser publicitários só ouço queixas. A vida é um inferno. Os desafios, poucos. O trabalho é pobre e mal remunerado. Não há salvação. O melhor é fugir para as montanhas.

Viajo para fora com frequência. É incrível ver o brilho nos olhos das pessoas quando digo que vivo em Lisboa. Mais ainda quando se tratam de jornalistas, escritores, cineastas, artistas em geral. Quem já veio, quer voltar. Quem nunca veio, sonha. Eu me rejubilo ao dizer que daí um dia ou dois vou para cá regressar.

Optei por viver em Portugal há 25 anos. Sempre achei (como ainda acho) que este país tem uma cultura própria muito interessante, um charme particular, um inesgotável potencial.

Cresci, desenvolvi a partir daqui uma carreira internacional, abrindo mão dos regulares convites que apareceram para ir trabalhar noutros países.

Não creio que a comida servida pela TAP nos voos de ida contenha um pó mágico que transforme as pessoas em génios. Já disse e repito: Portugal é capaz de gerar excelentes criativos.

Não tenho nada contra quem vai. Acho bonito ver publicitários portugueses (ou que por aqui passaram) a fazer sucesso lá fora. Muitos deles eu, literalmente, ajudei a formar em escritórios sediados entre o Marquês de Pombal e a Av. Duque D’Ávila.

Não creio que a comida servida pela TAP nos voos de ida contenha um pó mágico que transforme as pessoas em génios. Já disse e repito: Portugal é capaz de gerar excelentes criativos. Se vão trabalhar aqui ou lá fora é outra história.

Ficar não é sinónimo de mediocridade nem desculpa para a inação. Não me considero um filho de um Deus menor por gostar de viver em Portugal. Acredite, baixa autoestima não é o meu problema. Só aceito fasquias altas. Todos os dias luto para me levantar quando sou derrubado. E levanto-me. E volto a tentar. Ser criativo é sempre uma tarefa árdua. Seja em Lisboa, em Berlim, em São Paulo ou Buenos Aires.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “A única boa desculpa é aquela que serve para ajudar a recomeçar”.

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