Opinião

Lisboa já não é nossa

Fotografia: arquivo / Global Imagens
Fotografia: arquivo / Global Imagens

Aquela familiaridade da vida lisboeta foi substituída por uma caricatura para turista ver

Na montra, os patos de borracha diziam “Lisbon”, não “Lisboa”, e a senhora que fez a venda falava espanhol, não português. Porta sim, porta não, há lojas de produtos tradicionais portugueses empacotados em inglês para vender aos turistas e é frequente os donos desses estabelecimentos arranharem mal a língua de Camões. Também não precisam grande coisa dela. Uma portuguesa que vai à procura de aventais com o galo de Barcelos deve ser ocorrência rara; olharam-me de lado, perguntaram se era oferta. Não era. Eu é que sempre gostei de símbolos nacionais e queria levar comigo uns panos de cozinha com imagens do 28 e da guitarra portuguesa.

Ao contrário da sensação que tive há dois anos, quando já ouvia queixas sobre o aumento do turismo, desta vez é inegável que Lisboa foi tomada por um boom turístico que a está a descaracterizar. Tal como acontece com todas as cidades que se tornam coqueluches das agências de viagens, as estruturas viraram-se para servir os estrangeiros e não os residentes habituais. Aquela familiaridade da vida lisboeta foi substituída por uma caricatura para turista ver, e percebi finalmente o que é sentir-me deslocada numa cidade que já foi minha.

Mas não se pode olhar para estes fenómenos lançando sobre eles um lençol de críticas, como se tudo fosse mau, ou uma saraivada de fogo de artifício, como se fosse tudo bom. Acredito que os moradores que estão a receber cartas de renúncia de contratos estejam bem mais desconfortáveis que eu. Também relembro que várias zonas da cidades estavam em completo abandono antes deste despertar turístico na capital portuguesa.

Foi isso que me disse recentemente o CEO do grupo Vila Galé, Gonçalo Rebelo, numa conversa sobre transformação digital e o boom do turismo em Portugal. “Uma coisa que ninguém se lembra é o que era a zona da Baixa e do Chiado há 10 ou 15 anos”, referiu. “Ninguém andava a pé no Martim Moniz. Esta vida que a cidade ganhou, o turismo teve um papel fundamental. Os próprios habitantes de Lisboa desfrutam de espaços que não desfrutavam antigamente.” E, apesar do desespero de muita gente com as rendas e a ocorrência visível de gentrificação, acrescentou que “também não foram os turistas que correram com os residentes, porque os prédios estavam devolutos.”

É verdade. Dificilmente teria havido uma mega renovação em Lisboa sem o grande incentivo económico que vem com o entusiasmo turístico. Gonçalo Rebelo também lembrou que várias cidades europeias insuspeitas, como Praga, Estocolmo ou Budapeste, têm mais visitantes que Lisboa. A grande desvantagem para nós é que este boom se concentrou em meia dúzia de bairros históricos, em vez de alargar a outras zonas da cidade e aliviar a sobrecarga. “É preciso repensar como criar polos de atração noutros pontos da cidade e trazer pessoas para as avenidas novas, a expo”, sugeriu. Está certo. Na zona da antiga feira popular, o que temos? Nada. Mas é no Terreiro do Paço, uma zona bastante frequentada, que se fazem concertos e se põem ecrãs gigantes para os eventos desportivos?

O facto de os donos dos apartamentos turísticos e das lojas de lembranças raramente serem portugueses também dá que pensar. É uma história que já vi noutros lados: um sítio fica na moda, o valor da propriedade sobe e há dinheiro a rodos a rolar, mas não para os bolsos de quem sempre viveu ou teve um pequeno negócio lá. São os de fora que aproveitam. Talvez tenham isenções fiscais, talvez tenham capital para investir, talvez tenham mais desenvoltura, quem sabe. Da mesma forma que em Los Angeles é difícil encontrar “angelenos”, em Lisboa começa a ser mais difícil encontrar alfacinhas. E isto, meus caros, não é bem o que se pretende quando se fala nos benefícios da diversidade.

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