Lisboa não é um hub low cost, é um hub high-end

Os últimos 10 anos foram cruciais para posicionar Lisboa como uma cidade tecnológica a nível europeu e mundial e todos os intervenientes, desde os pequenos empreendedores às entidades políticas e aos investidores, tiveram um papel insubstituível. Esta semana, celebramos este trabalho e dedicação, celebramos todas as pessoas envolvidas, todos os negócios que prosperaram e falharam e desenhamos um pouco do que será o futuro, hoje mais incerto que há um ano.

É comum ouvir tecnológicas internacionais dizerem que escolheram Portugal como o local ideal para ter o escritório pelos baixos salários, quando a verdade é que é a qualidade do talento que as atrai. Temos boas escolas de engenharia, inúmeras iniciativas de requalificação e pessoas ambiciosas que querem ajudar a construir o mundo de amanhã. É por isso que se aliam a marcas com impacto. No entanto, grande parte destas pessoas são também empreendedoras. Quantas não estão a construir aplicações próprias após o trabalho, com outros tantos amigos? Quantas não identificaram uma lacuna no mercado e criaram a sua própria equipa para desenvolver uma solução?

Portugal, e Lisboa em particular, não é um hub low cost, é um hub high-end. E isso deve-se ao espírito empreendedor que começou por surgir mais em força após a crise de 2008 e, desde então, com as inúmeras oportunidades impulsionadas por incubadoras, aceleradoras, investidores, entre outros, só tem vindo a crescer e a abranger cada vez mais pessoas. São estes fatores – entre outros quantitativos que espelham este crescimento – que nos colocam no top 15 dos ecossistemas mundiais emergentes, segundo o relatório da Startup Genome de 2020.

Este ano tem sido particularmente desafiante para todos os setores e o do empreendedorismo não foi exceção. Apesar de os fundos de investimento de capital de risco continuarem a existir e a manter a sua robustez, mesmo em tempos turbulentos, assegurar que o ecossistema no seu todo, com todas as startups em diferentes fases de maturidade, todos os players de desenvolvimento e todos os parceiros de inovação, se mantém vivo e em contínuo crescimento é um verdadeiro desafio. E é essencial ser considerado, uma vez que estudos mostram que a falência de 40% de startups de um ecossistema (expectável em alguns casos com menos maturidade) pode reduzir o valor económico produzido por esse mesmo ecossistema em cerca de 50%. Adicionalmente, um desinvestimento no ecossistema obrigaria as startups a empurrarem o talento para as grandes empresas, onde o valor acrescentado será muito inferior.

Enquanto investidor, vejo este panorama como uma oportunidade para subirmos na escala mundial e liderarmos pelo exemplo. Depois de vermos a comunidade empreendedora a unir-se para criar soluções gratuitas que apoiassem as várias estruturas da sociedade a ultrapassar os novos desafios impostos pelo confinamento e pela pandemia, não há dúvida que temos um tecido consolidado e que devemos impulsioná-lo para não asfixiar.

Uma das formas é deixar-nos inspirar pela crise que vivemos no nosso próprio país e inovar em setores que até agora viram o seu negócio desenvolver-se pelo método tradicional. Turismo e Cultura são algumas das áreas que não valorizaram ainda a inovação por não a verem como prioridade. Hoje deverá ser, sem dúvida, uma das suas prioridades. Saúde é também um setor que tem inovado gradualmente, mas com um tímido ritmo de adoção de ferramentas de otimização ou de apoio ao trabalho dos seus profissionais.

Não é altura de criticar, mas é tempo de inovar e resolver, sendo que felizmente construímos um “terreno fértil” para isso mesmo. Cabe-nos a nós investidores continuar a proporcionar momentos de pitch, onde podemos conhecer e mentorar novos projetos, às incubadoras e aceleradoras continuar a promover dinâmicas de crescimento de pequenas ideias a grandes negócios, e a toda a comunidade empresarial e de educação continuar a credibilizar estas soluções com know-how e implementação em casos reais.

O futuro da Economia poderá estar nas mãos dos pequenos empreendedores, por isso, não os deixemos sem caminho.

Alexandre Teixeira dos Santos, responsável pela área de investimento da Bright Pixel

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