Literacia: um direito básico à espera de soluções

No dia 8 de setembro, celebrou-se mais um Dia Internacional da Literacia, no entanto, o certo é que pouco se falou desta data e da sua importância. Qual o motivo para que esta data não tenha tido o devido destaque? Por que razão a literacia continua a ser um tema por resolver - e agravado, nos últimos tempos, pela pandemia? Apesar de vivermos numa sociedade moderna e tecnológica, segundo a UNESCO existem, mundialmente, 750 milhões de pessoas sem saber ler e escrever e muitos milhões de crianças sem a possibilidade de frequentarem a escola.

A atual pandemia veio intensificar toda esta situação, ao alterar o processo de ensino a nível mundial e acentuar as desigualdades entre alunos, afetando, principalmente, os mais desfavorecidos e com menor acesso às plataformas digitais. Estima-se que, só em Portugal, existam 200 mil alunos que não podem recorrer a meios digitais para acompanhar as aulas online, modelo aplicado no terceiro período do último ano letivo. Adicionalmente, este sistema, que provocou, necessariamente, um afastamento entre alunos e professores, instalou um ensino menos individualizado e que não contempla as especificidades de cada criança, tendo-se mostrado pouco satisfatório para a maioria dos pais. Aliás, um recente inquérito da DECO evidenciou que apenas 30% dos tutores de alunos com necessidades educativas especiais ficaram satisfeitos. É exatamente este o problema que a tecnologia pode resolver, principalmente, quando falamos de proporcionar o conhecimento mínimo a uma criança para que possa interagir e apreender o mundo de forma mais completa. Neste momento, os esforços devem ser ainda maiores, uma vez que terá impacto na vida de cada um.

Com uma breve pesquisa, encontramos inúmeras aplicações tecnológicas pensadas para apoiar a aprendizagem de alunos com diferentes idades e ciclos de estudo, que pretendem resolver as mais ínfimas dificuldades, em várias disciplinas, inclusive, ajudar a aprender a ler. Algumas destas permitem um ensino individualizado e onde existe maior relação entre o aluno e o professor, mesmo à distância, possibilitando que a criança treine em casa, através de um processo mais completo, simples e divertido - adaptado ao seu ritmo de aprendizagem.

Estas soluções podem mesmo ser utilizadas em todos os tipos de ensino – no presencial, como ferramentas de trabalho adicional, e em sistemas completamente online, como o dos últimos meses, ao fazerem com que não existam paragens na aprendizagem. Num modelo híbrido, que alia as aulas presenciais com o online, que grande parte da comunidade educativa antevê como sendo o futuro da educação, esta ferramenta faz ainda mais sentido. Revejo-me nas palavras de Joaquim Azevedo, membro do Conselho Nacional de Educação, que vê com otimismo o futuro do ensino no pós-pandemia, considerando que esta é uma oportunidade para reorganizar as escolas e contribuir para a sua inovação, e é considero fulcral construir novas plataformas para impulsionar esta mudança.

Com todas estas mudanças, o Ministério da Educação fez um concurso público para comprar portáteis para todos os alunos. É suficiente ter este equipamento? Não. É também necessário formar docentes e encarregados de educação sobre como usar todas estas e outras ferramentas. E, apesar de encontradas as mais-valias destas soluções, há ainda um longo caminho a percorrer para que estejam de forma consolidada na vida e no ensino dos portugueses. Para isso, é preciso que sejam encaradas como essenciais à educação, o que exige uma mudança de mentalidade, que tem de partir da própria tutela. Após este primeiro passo, esta deverá providenciar, de forma igualitária, as soluções a todos os estabelecimentos de ensino no país, chegando a todos os estudantes independentemente da sua situação financeira ou de se tratar de crianças com necessidades educativas especiais. É ainda importante que os professores se adaptem e vejam estas ferramentas como um apoio ao seu trabalho e não um risco, já que em nada o vem substituir – vem antes aproximá-lo dos seus estudantes e aumentar o seu impacto.

Indo um pouco mais além, acredito que a pandemia poderá ser um ponto de viragem no ensino nacional, tendo dado o primeiro impulso para introduzir a tecnologia e inovação em todos os processos, melhorando a experiência de ensino para alunos e professores. Mas será esta a última pandemia? Penso que não, por isso, temos de aprender com esta de forma a estar preparados se saber responder ao que possa surgir.

Se a tecnologia faz hoje parte do mundo, precisamos de acompanhar essa mudança e trazê-la para a Educação, fazendo com que o próximo Dia Internacional da Literacia seja a celebração global da democratização do conhecimento e do avanço no ensino.

Patrick Götz, fundador e CEO da Teckies e criador da BeeFluent

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