Opinião

Livrem-se destes passarinhos em Lisboa

Aglomerado improvisado de trotinetes elétricas Bird e Lime-S ao pé da praia, em Santa Mónica, Califórnia/Ana Rita Guerra
Aglomerado improvisado de trotinetes elétricas Bird e Lime-S ao pé da praia, em Santa Mónica, Califórnia/Ana Rita Guerra

A invasão de Birds e outras marcas prova que existe mercado para meios alternativos de transporte, mas também está a causar problemas

A capital europeia mais charmosa do momento pode estar com excesso de turistas, caos no aeroporto e cenas de pancadaria entre taxistas e condutores de Uber, mas aquilo de que Lisboa ainda está a escapar é a invasão de trotinetes eléctricas partilhadas.

Tal como todas as loucuras que vêm de Silicon Valley, estas novidades tendem a explodir antes que as cidades consigam perceber ou controlar o que se está a passar. Foi o que aconteceu primeiro em Santa Monica, depois Venice, San Diego, San Jose, agora noutro bairros e Estados do país, como Texas, Washington, D.C., Colorado e Utah, entre outros.

A ideia fenomenal veio da Bird, que começou em Santa Monica no final do ano passado: pôr uma rede de trotinetes elétricas espalhadas pela cidade em que qualquer pessoa pode pegar para se deslocar. Foi um sucesso tremendo devido à facilidade de uso e ao preço baixo. A pessoa só tem de encontrar uma trotinete largada num qualquer passeio, abrir a app, fazer scan do código QR e começar a utilização. Custa um dólar de “bandeirada” inicial e 15 cêntimos nos minutos subsequentes.

Quem olha para a trotinete pode erguer o sobrolho quanto à sua viabilidade como meio de transporte. Foi isso que fiz quando comecei a ver pessoas empoleiradas nestes pequenos veículos de duas rodas, arraçados de Segway e com exigências ao nível do equilíbrio que não podem ser subestimadas.

Mas a verdade é que há muitas pessoas a usar e não são apenas jovens turistas com queda para o último grito da mobilidade. Quem anda pelas ruas de Santa Mónica arrisca-se a ter uma multidão de gente montada em trotinetes a passar a escassos centímetros. Eles andam nos passeios, nas faixas para bicicletas, nas passadeiras, no paredão. É perfeitamente possível substituir a utilização de um Uber ou de uma bicicleta elétrica por uma Bird em distâncias não muito longas e que não exijam percursos complicados. Suponho que as colinas lisboetas sejam um bom impedimento para a invasão de trotinetes eléctricas, mas há muitas zonas candidatas ao fenómeno. E acreditem: vai dar problema quando chegar.

Neste momento, as maiores questões a resolver são as do tráfego e do estacionamento. As pessoas largam as trotinetes em qualquer lado, em pé ou deitadas, gerando autênticos parques improvisados em zonas por onde é suposto passar gente. Verifiquei isso mesmo este fim de semana em Santa Mónica, onde não dá para atravessar um quarteirão sem ver uma trotinete largada num canto.

Os passeios estão cheios de trotinetes. Lá ao fundo, uma mulher em cima de um destes veículos

Os passeios estão cheios de trotinetes. Lá ao fundo, uma mulher em cima de uma trotinete

Depois há o fenómeno “enxame” e a necessidade de estar sempre com um olho no caminho e outro na trotinete. Não têm buzinas. O que têm é gente a gritar “saiam da frente!” quando parece haver perigo. Nem todos usam capacete, que não é obrigatório, e já houve acidentes – por exemplo, um atropelamento e fuga em Nashville de duas mulheres que iam em cima de trotinetes Bird.

São Francisco, curiosamente, tem estado em cima do fenómeno com regras muito restritas e limitações ao número de trotinetes por frota de cada marca. Bird, Lime e Spin são os grandes nomes do mercado e estão a receber aos milhões de dólares por parte dos investidores, tendo em conta a grande apetência do mercado pelo produto. A própria Uber investiu 335 milhões na Lime, num sinal de que a empresa leva a sério a concorrência.

As questões agora são estas: como evitar que as trotinetes sejam largadas em qualquer lado? Quantos trabalhadores são necessários para as recolher, mudar baterias e garantir que funcionam bem? E senhores, que tipo de regulação devem as cidades implementar para mais este meio de transporte via app?

Para as empresas que andam a investir nisto, é bom que o caminho não seja o dos hoverboards, aqueles skates futuristas que apareceram em força em 2015 e rapidamente desapareceram porque cidade após cidade proibiu a sua utilização por questões de segurança e mobilidade pessoal. Imaginem o que seria ter toda a gente montada em skates, patins ou trotinetes na via pública. Descongestionar as estradas é uma excelente ideia, em especial com alternativas eléctricas. Mas congestionar os passeios? Não é a melhor resposta.

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