Opinião: Ricardo Reis

Livros de 2018

Alan Greenspan. (Fevereiro de 2005). REUTERS/Larry Downing
Alan Greenspan. (Fevereiro de 2005). REUTERS/Larry Downing

"O livro que mais apreciei ler foi antes Bad Blood do jornalista John Carreyrou, que pouco ou nada tem de economia. "

Todos os anos, na última coluna do ano, escrevo sobre livros publicados em inglês nos últimos doze meses, que já foram ou espero sejam em breve traduzidos para português, e que aconselho para leitura de todos os interessados em economia. Este ano a escolha foi difícil. Foram poucos os livros que receberam atenção internacional e por isso têm esperança de ser traduzidos por uma editora portuguesa, e que ao mesmo tempo usaram a ciência económica de uma forma interessante.

Por exemplo, Capitalism in America de Alan Greenspan e Adrian Wooldridge, ou The Value of Everything de Mariana Mazzucato, vão ser apreciados por quem tem visões muito à direita ou muito à esquerda do que deve ser a política económica, respectivamente, mas em termos de ciência económica têm pouco valor, e quem prefere uma visão mais equilibrada do mundo vai achá-los irritantes. Por sua vez, Give People Money de Annie Lowrey teve muito sucesso por introduzir alguns leitores ao rendimento único universal, mas esta ideia não é nova e já existem muitos artigos de revista e jornal com o mesmo nível de profundidade do que o livro. O livro que estava com mais expectativa de ler era a história da crise financeira Crashed do historiador Adam Tooze, mas infelizmente o livro revelou-se uma desilusão pela forma como salta freneticamente de tópico em tópico, mistura conceitos, e imagina conspirações. Por fim, o livro do psicólogo Steven Pinker Enlightenment Now é recomendável para quem ainda não aprecia o progresso extraordinário no mundo nos últimos 50 anos, mas quem lê esta coluna regularmente não ficará muito surpreendido.

O livro que mais apreciei ler foi antes Bad Blood do jornalista John Carreyrou, que pouco ou nada tem de economia. Carreyrou foi um dos poucos jornalistas que há alguns anos começou a picar a bolha de promoção e exagero que rodeia Silicon Valley. Através de jornalismo de investigação cuidado e persistente ele mostrou que a companhia Theranos de análises do sangue, e a sua fundadora Elizabeth Holmes, prometiam revolucionar o mundo, mas eram antes uma grande fantasia, ou mesmo uma enorme fraude. O livro conta toda a história da Theranos, e como o fascínio do público pelas fortunas da Amazon, pelos algoritmos da Uber, ou pelo carisma de Steve Jobs, permite que se façam fortunas apoiadas numa mão cheia de nada. Em 2018, a maioria das pessoas começaram pelo menos a suspeitar que Mark Zuckerberg não é tanto nerd mas antes gestor implacável, que os lucros da Google se devem muito à evasão fiscal e pouco aos novos serviços que ela oferece, que Elon Musk tem mais de bazófias do que de visionário, ou que o bitcoin está mais próximo dos esquemas Ponzi do passado do que das visões libertárias do futuro. Ler o trabalho cuidado de Carreyrou neste livro empolgante sobre um dos piores exemplos das empresas das novas tecnologias permite perceber melhor o ambiente em que estas pessoas e empresas vivem. Todas as mudanças tecnológicas têm bons e maus exemplos.

Professor de Economia na London School of Economics

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