Ricardo Reis

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Os alemães hoje insistem nas regras e na disciplina

Como habitual, nesta altura do ano recomendo os melhores livros de economia que li recentemente.
O primeiro é The Euro and the Battle of Ideas, escrito pelo economista Markus Brunnermeier, o historiador Harold James, e o banqueiro Jean-Pierre Landau. Os autores documentam e explicam o conflito permanente entre alemães e franceses no projeto da moeda única.

Os alemães hoje insistem nas regras e na disciplina. O seu Ministério das Finanças e o seu banco central são dominados por professores de Direito e advogados. Na sua perspectiva, o grande problema da zona euro é, por um lado, a dívida excessiva que põe em risco o cumprimento de obrigações contratuais e, por outro lado, os maus incentivos criados por bail outs. Estas políticas públicas, por socorrerem quem está em crise, encorajam maus comportamentos, semeando as raízes da crise seguinte.

As políticas públicas francesas são antes dominadas por economistas e políticos. Eles otimizam as situações e acham essencial ter flexibilidade para responder às crises. Os alemães querem usar as crises para implementar reformas com efeitos no futuro, enquanto os franceses acham que é importante antes estimular a economia para sair rapidamente da crise.

Mais interessante, os autores mostram que nem sempre foi assim. Recuando umas décadas, eram os franceses que insistiam em regras e os alemães quem preferia a discricionariedade. Esta batalha de ideias e abordagens está na raiz da política europeia há muito tempo.

O segundo livro, de Richard Baldwin, é The Great Convergence – Information Technology and the New Globalization. A nova globalização começou em 1990. Nessa altura, os sete países mais ricos atingiram o seu apogeu, controlando 70% da riqueza mundial. Desde então, o seu quinhão da riqueza caiu para baixo de 50%, o nível em 1900.

As tecnologias de informação permitiram aos países mais ricos exportar as suas ideias e processos para os países mais pobres. Combinados com mão-de-obra abundante, eles permitiram um crescimento económico fulgurante. O gatilho foi tecnológico, não político. Tentar combater o desaparecimento da indústria nos EUA ou na Europa com políticas protecionistas vai falhar porque entra em choque com o que são mudanças tecnológicas. Se não forem os chineses a ficar com os empregos dos ingleses, serão antes os robôs; mas os empregos industriais não voltam.

Mais arrojado, Baldwin argumenta que a última fase da globalização será a telepresença, quando um médico ou advogado na Coreia puder fazer à distância o trabalho que um médico em Portugal hoje faz. Ajustarmo-nos a esta nova realidade vai implicar cuidar das pessoas em vez de proteger postos de trabalho.

Nenhum dos dois livros é a última palavra nos seus respetivos assuntos. Mas combinados oferecem uma perspectiva do populismo em 2016. As mudanças profundas no mundo moderno são tecnológicas e por isso irreversíveis, mas há grandes confrontos de ideias e princípios sobre como lidar com elas.

Professor de Economia na London School of Economics, em Londres

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