opinião: Filipe Charters de Azevedo

Lotaria: a solução em países estagnados

lotarias

A probabilidade de sair do buraco é maior jogando a lotaria do que a trabalhar uma vida toda.

Por que motivo se joga na lotaria? Não estou a falar dos casos patológicos de quem joga 500 euros num só dia em raspadinhas. Deixem-me reformular a pergunta: Por que motivo, em Portugal, alguém com poucos rendimentos e pobre prefere apostar as suas magras poupanças numa lotaria, na qual a probabilidade de enriquecer é praticamente nula?

A resposta é assustadora: porque num país estagnado, como o nosso, a probabilidade de sair do buraco é maior jogando a lotaria do que a trabalhar uma vida toda. É mais provável alguém ser rico raspando um cartão, jogando o totoloto ou o euromilhões do que a trabalhar.

Um dos aspetos mais terríveis da nossa longa estagnação económica é a falta de perspetivas. É saber que mesmo trabalhando nunca lá chegaremos. Há por isso um certo romantismo associado à lotaria. Num jogo de sorte, as pessoas juntam-se para, em comunidade, tirar uma pessoa da apatia financeira em que vive. Todos compram um bilhete, sabendo que um deles vai ser excêntrico, rico ou no caso da raspadinha terá uma tarde bem passada com a carteira um pouco mais cheia. Poderá ir a um restaurante e não olhar para a coluna de preços do menu. Numa lotaria, todos se juntam, para que pelo menos um deles fique melhor.

Este mecanismo de interajuda existe um pouco por todo o lado onde há estagnação ou onde é difícil a ascensão social. E toma por vezes formas muito curiosas.

Em Angola, por exemplo, joga-se ao kixikila. (Curioso o verbo “jogar”.) Em cada semana todos os membros do grupo dão metade do seu salário, às vezes mais, a um dos membros. Esse sorteado pode comprar o que ambiciona – muitas vezes para comprar o que precisa para se casar ou aguentar a despesa de um parto. O sortudo pagará a sua dádiva nas semanas seguintes, já que o esquema vai rodando entre todos. Um estudo do ISCTE permitiu concluir que a kixikila impulsiona “alterações significativas na vida das pessoas, mudanças para consumo de bens mais duradouros, aumento do rendimento, do emprego e do investimento, ou seja, o desenvolvimento”.

Um dos aspetos mais terríveis da nossa longa estagnação económica é a falta de perspetivas. É saber que mesmo trabalhando nunca lá chegaremos.

Outro registo. Não foi por acaso que Robert Mugabe, no auge da crise financeira em 2000 no Zimbabwe, lançou uma lotaria. Sabia que o bilhete da sorte aliviaria a pressão social, permitindo às pessoas sonhar. Um dos Zimbabueanos tinha a hipótese de ser rico. Não sei se consigo transmitir a magia e a abnegação: “Um de nós pode sair, se todos contribuirmos.” A igualdade é boa, mas é ainda melhor quando pelo menos um pode prosperar. E esse um, pode ser qualquer um. Assim, a comunidade juntou-se junto à televisão para saber quem seria o felizardo que iria ganhar o magnifico prémio (cerca de 2500 dólares aos dias de hoje) e subir um pouco na vida. Quem ganhou o prémio foi o Robert Mugabe, presidente do país. Com uma fortuna de vários milhões. Enfim… em ditadura até os sonhos estão viciados.

No-Lose Lottery

Mas o caso mais interessante é o da poupança com prémio, ou Lotaria sem perdas. A ideia é simples. Numa conta a prazo, com taxas de juro garantidas, tira-se, por exemplo, meio ponto para financiar uma lotaria. Os aforradores não perdem a sua poupança e podem, à vez, ganhar um pouco mais.

A igualdade é boa, mas é ainda melhor quando pelo menos um pode prosperar.

Quando a Santa Casa esteve para entrar no Montepio pensei que a ideia fosse essa: constituir um sistema de Prize-Linked Savings, à semelhança do que existe no Reino Unido e nos Estados Unidos. Este tipo de produtos tem uma curva de recompensa muito estendida permitindo ganhos avultados, poupanças e algum retorno. Continuo a achar que é uma boa ideia.

Num momento em que o país está estagnado, em que cada geração tem menos perspetivas financeiras do que a anterior, em que há necessidades de aforro, a criação de contas poupança com lotaria pode ser uma solução. Não deixaria ninguém pior. E ajudaria a combater, com certeza, o flagelo de quem se desgraça sobre uma raspadinha, sonhando com excentricidades e superando o seu rendimento em cada aposta.

PS: Não é necessário saber calcular probabilidades com casas decimais para saber que, para uma parte significativa da população, a trabalhar ou com a magra reforma, a probabilidade de sair do ciclo de miséria é zero. Na lotaria, a probabilidade é muito ligeiramente maior do que zero. Mas nada disto justifica o problema de saúde pública ligado à raspadinha.

Empresário

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