Opinião: Ricardo Reis

Malucos ricos asiáticos

Atores Henry Golding e Constance Wu, durante a apresentação do filme "Crazy Rich Asians" em Los Angeles, California. 7 de agosto de 2018. REUTERS/Mario Anzuoni
Atores Henry Golding e Constance Wu, durante a apresentação do filme "Crazy Rich Asians" em Los Angeles, California. 7 de agosto de 2018. REUTERS/Mario Anzuoni

"Singapura é o 7.o país mais rico do mundo, com um PIB per capita ajustado ao poder de compra que é três vezes maior do que em Portugal"

O filme Crazy Rich Asians já rendeu 200 milhões de dólares em bilheteira, um enorme sucesso para um filme que custou 30 milhões. Isto apesar de o enredo ser igual a dezenas de outros filmes: rapariga de família humilde mas talentosa e esforçada namora com um rapaz bonito e bonzinho; descobre que a família dele é rica e poderosa; o meio social dele rejeita e humilha a rapariga; ela quase desiste mas depois mostra o seu valor enfrentando a sogra; a sogra aceita-a e acaba tudo bem. Um detalhe saboroso é que a heroína é professora de Economia e usa princípios de microeconomia para enfrentar a sogra, mas tirando isso, uma ou outra cena cómica e a representação da atriz Michelle Yeoh no papel da sogra, a minha memória reteve pouco mais uns dias depois de ter visto o filme.

Na imprensa, o filme recebeu muita atenção por o elenco ter exclusivamente atores asiáticos. Os elogios foram muitos nos EUA pela promoção desta minoria étnica. Os ativistas dominantes no mundo ocidental concentram-se hoje nos problemas da identidade e discriminação, passando por cima da celebração do capitalismo, da opulência e da exibição de novo-riquismo, que é constante no filme e que há umas décadas seria violentamente criticada. Ao mesmo tempo, porque nestas questões nunca faltam minorias oprimidas, o filme também foi criticado porque todas as pessoas no filme são da etnia chinesa dominante em Singapura, quando um quarto dos seus habitantes são indianos, malaios ou de outra minoria.

O que o filme retrata muito bem é a riqueza acumulada na Ásia nas últimas décadas. Singapura é o 7.o país mais rico do mundo, com um PIB per capita ajustado ao poder de compra que é três vezes maior do que em Portugal. Nos últimos 15 anos, o PIB per capita português cresceu cerca de 6%; o PIB chinês cresceu 355%. Las Vegas ou Mónaco são os símbolos da opulência desavergonhada para muitos, mas os casinos em Macau já faturam mais do que os seus parceiros americanos ou europeus.

Não há uma receita mágica que explique por completo o que está por trás deste sucesso asiático ou que permita replicá-lo noutros países. Alguns ingredientes comuns são os incentivos à concorrência externa e às exportações, sistemas fiscais pouco progressivos, respeito rigoroso da lei, formação de jovens elites nas melhores universidades mundiais, e uma combinação de liberalismo económico com autoritarismo político.

Neste mês foi editado em Portugal o livro O Despertar da Eurásia, de Bruno Maçães. Ele argumenta que só uma integração com esta nova Ásia pode permitir à Europa manter a sua prosperidade e relevância. Habituados a olhar a oeste, os portugueses têm cada vez mais de olhar longe para leste. Uma aposta segura é que Crazy Rich Asians é o primeiro de muitos filmes que aí vêm. Daqui a uns anos, os portugueses conhecerão, dos ecrãs, tão bem a Praça de Tiannamen, a marina Bay Sands ou o Taj Mahal como conhecem hoje Times Square, a marina de Saint-Tropez ou a Estátua da Liberdade.

Professor de Economia na London School of Economics

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