Manipulando a nossa atenção

Quando o Facebook, Instagram e WhatsApp estiveram em baixo na semana passada, o mundo percebeu o quão dependentes nos tornámos destas redes sociais e plataformas de comunicação no dia-a-dia. É uma dependência grotesca, que nos consome o tempo a golpes de gula e cujo impacto no nosso tecido cerebral ainda está a ser estudado.

Mas os indicadores que têm sido analisados até agora não auguram nada de bom. O apagão das propriedades Facebook aconteceu quase ao mesmo tempo que as acusações de uma ex-funcionária, Frances Haugen, e esta controvérsia enformou a decisão da empresa de Zuckerberg de pôr em suspenso a ideia de um Instagram para crianças.

Não é preciso ir muito longe para saber, instintivamente, que um Instagram para crianças é a pior ideia desde a teoria da Terra plana. Os adultos mal conseguem lidar com as pressões associadas à imagem e à popularidade, à projecção de uma vida perfeita e ao sucesso ou insucesso das suas publicações. Os adolescentes, principalmente as raparigas, sofrem negativamente com a visão enviesada do mundo que absorvem nos seus feeds e não têm sequer as ferramentas emocionais para processar o que estão a ver. Querem pôr crianças a consumir Stories e Reels? Qual é a ideia, não acham que o inferno está quente o suficiente?

Além do potencial de cyberbullying que isto abre e as questões de privacidade que coloca, há uma diferença monumental em relação à utilização por adultos. Nós entrámos no mecanismo das redes sociais como uma volta num carrossel, algo diferente e colorido - mágico por vezes - mas externo, passível de ser parado. O mesmo não é verdade quando se trata de crianças, cujas personalidades e conexões cerebrais estão em plena formação. Se nós temos dificuldades em desenvencilhar-nos do poder dos algoritmos que nos consomem e manipulam, o que farão a crianças em crescimento?

A estudante de doutoramento Aileen Nielsen, do Centro de Direito e Economia do ETH Zurich (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique), explorou um aspecto fundamental desta questão num "white paper" intitulado "Tech has an attention problem" (A tecnologia tem um problema de atenção).

No trabalho, Nielsen endereça os potenciais custos e malefícios do efeito destes algoritmos, que as redes sociais estão a afinar continuamente com um só objectivo em vista: manter os utilizadores envolvidos e interessados, navegando de foto em foto ou vídeo em vídeo durante horas, consumindo média e publicidade em doses excessivas, manipulando a nossa atenção.

Nielsen argumenta que a legislação ainda não contempla de forma adequada os malefícios "da captura generalizada, não regulamentada, sub-compensada, opaca e muitas vezes prejudicial da atenção humana, que resulta de decisões de design tomadas para optimizar os interesses dos donos das infra-estruturas digitais, sem ter em conta o bem-estar dos consumidores."

Isto resume com grande relevância o que se está a passar. Alguns trabalhos exaustivos, como o podcast "Rabbit Hole" do New York Times e o documentário "O dilema das redes sociais" da Netflix aprofundam a análise de como os algoritmos estão cada vez melhores a prender os utilizadores. Nielsen defende, no seu trabalho, que devem ser usadas "métricas de atenção" para quantificar os efeitos destas tácticas das grandes tecnológicas.

A investigadora caracteriza o actual estado de coisas como um "ataque" à atenção humana, resultando em inúmeros malefícios cognitivos, temporais e outros. As métricas da atenção que ela propõe poderiam quantificar a distracção das pessoas no trabalho, o afastamento da família ou a diminuição da vida social que resultam do uso excessivo de redes sociais.

Olhar para isto é importante porque as novas gerações não terão memória de um mundo offline. Dar-lhes acesso a plataformas como o Instagram durante períodos críticos de desenvolvimento é um desastre à espera de acontecer: uma modificação permanente das suas capacidades de atenção, habituando-as a um constante pingar de notificações e à dopamina que é transmitida a cada reacção a uma foto, vídeo ou publicação. A doutrina da "big tech" ganharia raizes antes da formação de uma personalidade completa e fundamentada no mundo real.

Ainda não é tarde demais para evitar isto, mas o tempo está a esgotar-se ao ritmo de um curto vídeo no TikTok.

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