Opinião: António Saraiva

Manter a paciência para evitar o caos

Fotografia: Toby Melville/ Reuters.
Fotografia: Toby Melville/ Reuters.

Os políticos devem agir com responsabilidade e retirar do campo das hipóteses o cenário de um “não-acordo”

Nesta semana, em que o Brexit esteve novamente na primeira página dos jornais, não poderia deixar de dedicar a minha atenção a este tema.

As empresas e os cidadãos assistem, impotentes, aos episódios que se sucedem como se de uma série de suspense se tratasse. Infelizmente, não estamos perante ficção, mas na vida real, e não haverá um herói que no último minuto surja no horizonte com uma solução mágica.

O que há de novo neste processo?

Em primeiro lugar, o parlamento britânico reafirmou aquilo que não quer: nem o acordo concluído pelo governo com a União Europeia (mesmo com garantias adicionais conseguidas a custo), nem uma saída sem acordo.

Em segundo lugar, continuando a não ser capaz de afirmar aquilo que quer, pediu um adiamento da data de saída.

Este adiamento, que, segundo tudo indica será longo, poderá fazer surgir alguma luz no fundo do túnel, dando espaço para uma clarificação daquilo que o Reino Unido pretende, seja através de um segundo referendo, seja através de eleições que possam conduzir a uma nova base negocial, com novos atores.
Esta era a única opção que restava para evitar uma saída desordenada. Opção que, de acordo com uma recente sondagem, era pedida por quase 9 em cada 10 empresas britânicas. Estou certo de que esta posição é partilhada pela generalidade das empresas europeias.

A menos de duas semanas da data de saída, resta esperar, agora, que na cimeira da próxima semana, nenhum líder europeu perca o sentido de responsabilidade e o pedido de adiamento seja aceite.

Os políticos devem agir com responsabilidade e retirar do campo das hipóteses o cenário de um “não-acordo”. Mesmo que isso signifique prolongar penosamente a incerteza sobre o desfecho deste processo: a incerteza será certamente melhor do que a certeza da concretização do pior cenário.

Mais do que evitar o caos nos fluxos entre o Reino Unido e o resto da Europa; mais do que evitar prejuízos significativos e duradouros nas economias, de um e do outro lado do canal da Mancha, é preciso evitar danos sociais e políticos irreversíveis no Reino Unido, na União Europeia e no relacionamento entre ambos. E é preciso, não o esqueçamos, salvaguardar a paz: a frágil paz alcançada, a tanto custo, na Irlanda, desde 1998.

Vale a pena, por isso, manter a paciência.

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