Opinião: Carlos Coelho

Marca Portugal. Qualidade real, preço virtual

Fotografia: Gustavo Bom/ Global Imagens
Fotografia: Gustavo Bom/ Global Imagens

"Somos um país antigo, por vezes com “excesso” de identidade. Temos orgulho nesta grandeza, mas que tantas vezes se traduz em pequenez"

Estamos a viver os últimos dias da realidade tal como pensávamos que seria: pura, verdadeira, inquestionável. Acreditámos que a qualidade intrínseca das coisas era objetiva e suficiente para garantir o valor de um produto, de um serviço ou de um país. Mas, na realidade, a realidade nunca foi mais do que aquilo em que nós acreditámos: no tempo da ditadura era pequena, veio a liberdade e expandiu, e depois veio a Europa e fomos invadidos pelas realidades dos outros.

A realidade sempre foi manipulada em função dos interesses políticos e económicos. Hoje mais do que nunca estamos numa guerra de realidades do mal e do bem. “Mentir” produz cada vez mais benefícios económicos, na medida em que, por defeito, nós acreditamos no que nos dizem. Produzem-se fake news, que nos assustam pelo realismo, mas também se criam novas realidades de super-humanização que nos levarão a expandir a forma como vivemos e construímos o futuro da humanidade.

Neste mundo complexo, as marcas são portas que dividem estas duas “qualidades” aparentemente distintas. Do lado de dentro de um produto, só se vê a “qualidade real”, intrínseca. Do lado de fora, do olhar do consumidor, só se vê a “qualidade virtual” percecionada. Hoje, cerca de dois terços do preço de venda corresponde ao valor percebido. Por muito que nos custe, a qualidade é subjetiva e desvalorizável.

Somos um país antigo, por vezes com “excesso” de identidade. Temos orgulho nesta grandeza, mas que tantas vezes se traduz em pequenez, que em petits comités gosta de falar e de beber champanhe francês. Somos mais-ou-menos-istas, vamos andando, continuamos com um país governado pela desvalorização da nossa realidade. Não nos sabemos vender, temos vergonha de nos vender! Fomos criados no “pequenismo”, a fazer contas de diminuir.

A nossa cultura comercial foi crescendo com o orgulho do produtor e a síndroma do comprador, acreditando na verdade do negociante, que quer sempre comprar mais barato, em mais quantidade, para aumentar o volume e a sua margem. Confundimos a habilidade do comerciante com a vontade do consumidor e fomos baixando os preços, aceitando esta realidade, como destino. Neste mundo real-virtual, cada um de nós poderá decidir a sua realidade, mas, no conjunto, todos temos de decidir qual é a “realidade” económica que queremos, realmente, para o futuro da marca de Portugal.

Presidente da Ivity Brand Corp e da Associação Portugal Genial

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