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Marx no caminho de Dilma

Basta fazer uma busca no site das duas publicações: a cada notícia na "The Economist" ou no "Financial Times" anterior a 2011 sobre a iminente eleição de Dilma como sucessora de Lula, aparecia entre vírgulas uma definição/advertência: "Dilma, antiga guerrilheira marxista" ou "Dilma, simpatizante de Marx na juventude". As quatro letrinhas - m-a-r-x - que mais assustam as bíblias internacionais dos mercados e da alta finança não a largavam. E hoje, após quatro anos de governo? Acredite: ainda não a largaram.

Dilma Rousseff, cuja performance vai ser sufragada em outubro, não
tem tido um 2014 fácil. Como mandam as regras, a oposição
aproveita cada falha para a atacar. Mas a imprensa, que devia lidar
com outras regras, também. Os aliados do seu partido, o Partido dos
Trabalhadores (PT), idem. E até o próprio PT não morre de amores
por ela.

Comecemos pela oposição. Aécio Neves e Eduardo Campos, os
principais concorrentes de Dilma, viram no caso da compra ruinosa de
uma refinaria nos EUA pela Petrobrás então liderada por Dilma
Rousseff, um ângulo – justo – de ataque à presidente. No entanto,
a compra da refinaria foi uma decisão de um conselho onde se
incluiam algumas das vedetas do empresariado brasileiro, hoje
apoiantes empedernidos de Aécio e de Campos. A esses astros da alta
finança, nenhum dos dois candidatos aponta o dedo.

E, mais grave, nem a imprensa. Porque na “Folha de São Paulo“,
n””O Estado de São Paulo”, n””O Globo” ou na revista
Veja“, a “oposição escrita” como lhe chama o PT, à medida
que se aproximam as eleições mais se confundem factos com versões
– normalmente a versão da oposição.

Oportunista, a súcia de partidos que, sob o epíteto de “base
aliada”, parasita o governo chama a imprensa para toscas
encenações. O líder do Partido Republicano, um dos tais aliados do
PT, fez-se fotografar no seu gabinete a trocar um quadro com uma foto
de Dilma por outro com uma foto de Lula. O desejo de regresso de Lula
entre os “aliados” do governo não é desinteressado: por um
lado, assustados com a queda gradual da presidente nas sondagens,
vêem na mitificada e provavelmente vencedora candidatura do
sindicalista a garantia de que continuarão agarrados ao poder; por
outro, sabem que com o velho chefe, a troca de cargos por favores
será muito mais acessível do que com a atual residente do Planalto.

No próprio PT, a ala chamada de “Volta Lula!” conspira por
todos os lados a cada queda nas sondagens da presidente. Mas foram o
PT e o lulismo precisamente a principal fonte dessas quedas nas
sondagens da presidente. Pudesse ela prosseguir a exigente agenda de
limpeza ética com que iniciou o seu mandato, traduzida na dispensa
de sete membros do governo por casos de corrupção e seus derivados
nos seis primeiros meses de gestão, e a sua popularidade seria
superior. Foi do próprio PT – e da tal base aliada – que partiu
a ordem para acalmar o ímpeto moral da presidente.

Ninguém pode negar que, na economia, o governo tem errado
diagnósticos e posologias. Mas como diz o insuspeito ministro das
finanças da ditadura militar Delfim Netto “o pessimismo do setor
empresarial está muito acima do razoável”. Diz ele, em jeito de
recado aos oposicionistas Aécio e Campos, que “não adianta
apropriar-se do andar de cima, porque o andar de baixo do Brasil
ainda está muito mais satisfeito do que parece”.

Especialistas internacionais em “andares de cima”, as agências
de rating aproveitaram a conjuntura para baixar as notas do Brasil e
a “The Economist” e o “Financial Times” para atacar o governo
brasileiro (o ritual aliás é sempre o mesmo: as agências de rating
gritam “fogo” e os grandes jornais económicos disparam em
bloco). A “The Economist” classificou Dilma de “desilusão” e
o “Financial Times” disse que a cada dificuldade ela age com
“trapalhadas do género das dos Irmãos Marx”. E pronto, trocaram
Karl por Groucho e companhia mas as quatro letrinhas assustadoras
voltaram.

Jornalista

Escreve à quarta-feira

Crónicas de um português emigrado no Brasil

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