Opinião: Carlos Brito

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Fotografia: REUTERS/Nacho Doce
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Quer saber uma má notícia? A balança de transações correntes portuguesa é negativa. Quer uma péssima notícia? Portugal voltou a ter défice naquela que foi a grande tábua de salvação da nossa economia – e, consequentemente, do País – durante os anos da crise.

Vamos por partes. A balança de transações correntes (ou apenas, balança corrente) agrega as exportações e importações de bens e serviços assim como os rendimentos dos fatores produtivos e as transferências correntes. Quando o seu saldo é positivo, os ativos do país no estrangeiro aumentam; quando é negativo, isso significa que a economia se está a financiar através de poupanças externas, ou seja, que o país vê a sua dívida externa aumentar.

Durante dezenas de anos Portugal apresentou uma balança corrente negativa. Por outras palavras, se o País fosse uma família, isso quer dizer que, em parte, vivíamos à custa do crédito externo. E, como disse, foi o que ocorreu durante longos anos até que fomos apanhados pela crise das dívidas soberanas, pela intervenção da troika com todas as medidas de austeridade (ou de ajustamento, conforme a perspetiva) e, quando tudo se encaminhava para vivermos uma “Grécia à portuguesa”, a economia deu sinais de uma resiliência com que poucos sonhariam. Não, não foi milagre. Foi o resultado do esforço de muitos e bons empresários – e de todos os que com eles trabalham – que fez com que a balança comercial passasse a apresentar saldos positivos a partir de 2012. Acrescente-se que a última vez que tal tinha ocorrido tinha sido em 1943 (sim, está a ler bem) num contexto muito específico decorrente do conflito mundial que na altura infelizmente existia.

Se hoje vivemos despreocupados (aliás, demasiado despreocupados, na minha opinião) muito se deve a todos os que fizeram com que os nossos bens e serviços (e não foi apenas o turismo) tivessem um comportamento verdadeiramente notável nos mercados internacionais.

Só que a partir do ano passado voltámos aos défices da balança corrente. Não quero ser pessimista, mas parece que a dita “família portuguesa” voltou a viver à custa do crédito externo. Até quando? Até que os nossos credores nos voltem a mostrar um cartão amarelo – ou mesmo um vermelho por acumulação de amarelos – e lá vamos ter de enfrentar novo período de austeridade (ou ajustamento!), adotando medidas que parece que só estamos dispostos a aceitar quando impostas de fora. Será que não aprendemos?

Professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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