Opinião

Mas… o que é que se passa aqui?

Afonso Azevedo Neves

Para os decisores públicos e privados, para empregadores e empregados, a alteração do grau de certeza dos dados é potencialmente um problema grave.

Se é um leitor assíduo de notícias, se passa os olhos pelas redes sociais ou vê telejornais, há uma linha comum que poderá ter identificado.

Parece que vivemos numa novela noticiosa onde a trama se arrasta durante meses, com altos e baixos, picos de euforia injustificada, certezas que são desmentidas e quase todos os protagonistas proferem o famoso clichê: “o que é que se passa aqui?”

Um dos grandes desafios de comunicação que a covid colocou a todos nós mas em especial aos jornalistas, foi a certeza dos dados veiculados por profissionais de saúde. Uma realidade que afetou e afeta as decisões que as empresas tiveram e têm de tomar.

Será que podemos voltar ao escritório? Porque é que os bons resultados de ontem são agora maus? Afinal a Suécia é que tinha razão ou não?

Como ter confiança no que nos é dito, no que lemos e ouvimos, quando o que é garantido pelos maiores especialistas hoje, é desmentido pelos acontecimentos e pelos próprios, amanhã? Um exemplo claro para todos foi o desenho de cenários muito graves e que motivaram as medidas de distanciamento social, cenários que na sua grande maioria foram desmentidos pelos números. Os mesmos números que agora parecem voltar a ser desmentidos pelos resultados atualmente. Primeiro tivemos um anúncio de catástrofe iminente, seguido da satisfação de bons resultados e de uma certa desconfiança face aos cenários desenhados, agora parece que afinal as coisas estão piores… ou será que nunca estiveram boas? Afinal, o que é que se passa aqui?

O que se passa é o seguinte: A comunicação de políticas públicas é complexa por natureza, mas se o debate público é fundamental também torna tudo muito mais fluido e incerto. Quando somamos tudo isto a um cenário de pandemia em rápida mutação, em que novas descobertas geram novos factos e desmentem certezas anteriores, é natural que aumente a incerteza e as decisões se tornem objeto de grande desconfiança.

À medida que o tempo passa é mais complicado perceber o que é informação acionável e o que é ruído. É aqui que reside o grande desafio para instituições e empresas. Esta permanente alteração do grau de certeza sobre os dados é normal e aceite pela comunidade científica. Para os decisores públicos e privados, para empregadores e empregados, essa mesma alteração do grau de certeza dos dados é potencialmente um problema grave, é muito difícil tomar decisões quando não se consegue perceber se estamos perante uma alteração, uma correção ou um erro.

O que fazer então?

Comunicar com honestidade, de forma franca e esclarecedora, com base no que sabemos hoje mas preparados para nos adaptarmos a prováveis alterações. O bom senso, a calma e a disponibilidade para nos adaptarmos será fundamental para sairmos mais ricos e preparados para a incerteza da vida, mas também para melhores dias.

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