Opinião: João Almeida Moreira

Masoquismo eleitoral

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil.  EPA/MARCELO SAYAO
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil. EPA/MARCELO SAYAO

Em 2014, Dilma Rousseff foi acusada de cometer fraude (no Brasil usa-se nestes casos a expressão ‘estelionato’) eleitoral.

Ao longo da campanha, como presidente nos quatro anos anteriores, usou o discurso de que a saúde da economia brasileira não estava tão debilitada como a oposição e a maioria dos observadores diagnosticavam, que não seriam necessários sacrifícios tão excecionais assim nos anos seguintes e que a palavra austeridade não entraria no vocabulário dos brasileiros tão cedo como os economistas mais pessimistas vaticinavam.

Uma vez eleita, tratou de convidar um dos mais espartanos economistas do país, que até tinha feito parte da equipa de trabalho do seu rival eleitoral Aécio Neves, para ministro das finanças e começou logo a anunciar cortes, apertos e tesouradas.

Os eleitores votaram numa coisa – o discurso do otimismo e da recuperação do país sem especiais penitências – e obtiveram o seu reverso.

Essa fraude eleitoral ajudou a minar a imagem da presidente aos olhos da população e, por consequência, o seu prestígio no Congresso Nacional. Nesse quadro de fraqueza, os parlamentares ajudariam o vice Michel Temer a tomar-lhe o lugar.

Em 2018, não. Mesmo que de forma amadora, incompetente, delirante e inusitada o governo de Jair Bolsonaro parece com vontade de cumprir as promessas que apresentou ao eleitorado em campanha.

Que, na área da segurança, a menina dos olhos do capitão reformado, passam por reduzir a idade penal e flexibilizar o porte de arma.

Na economia, cortar direitos laborais – o ministério do trabalho foi até extinto -, privatizar ao limite – sob a condução do ministro Paulo Guedes, cuja alma mater é a ultraliberal escola de Chicago – e reduzir reservas indígenas – para promoção do agronegócio.

Nos costumes, vetar educação sexual – incluindo a tal “ideologia de género” – e discussões políticas das escolas – o suposto “marxismo cultural” reinante.

Nos últimos dias de 2018, o instituto de sondagens Datafolha tomou o pulso à população em relação a essas propostas. E constatou que, afinal, 71% dos 2077 brasileiros ouvidos é a favor de que assuntos políticos sejam debatidos nas salas de aula e que 54% aprova o sexo como tema escolar – o “sim” ganhou em todas as idades, em todas as classes socioeconómicas, em todos os credos, em todas as simpatias partidárias, em todas as regiões.

Sessenta por cento dos cidadãos ouvidos em 130 municípios do país são, por outro lado, contrários à redução de reservas indígenas. Contra as privatizações, os mesmos 60%. Já os brasileiros que preferiam não ver cortes nos direitos laborais são também maioria: 57%.

Até na questão do porte de arma, a maioria dos cidadãos discorda da opinião do presidente que elegeu – 61% não quer leis mais flexíveis. Nestas sete questões, só na da redução da idade penal de 18 para 16 anos eleitores e eleito estão sintonizados.

É certo que Bolsonaro, mesmo somando 55% dos votos válidos, descontadas as abstenções, brancos, nulos e quem ainda não é eleitor, só foi votado por 39% da população. Mas a explicação para a disparidade apontada no Datafolha não é apenas matemática.

Talvez se justifique pela união de vontades de impedir o PT – da tal fraude eleitoral de há quatro anos – de voltar ao poder. O preço da mentira em campanha só foi, assim, cobrado quatro anos volvidos.

Mas se em 2014 houve fraude eleitoral, em 2018, a avaliar pelos números agora tornados públicos, houve “auto fraude eleitoral”. Ou, por outras palavras, masoquismo eleitoral.

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