Opinião

Mataram-nos a Primavera

Fake news redes sociais

É impossível ignorar o estado calamitoso das redes sociais em 2018, de Bolsonaro às fake news do empresário de Santo Tirso

Talvez nunca tenha havido uma inocência que se pudesse perder nas areias movediças das redes sociais, mas certamente houve esperança e encantamento com o poder destas plataformas na democratização do discurso público. Em 2011, o Twitter e o Facebook tiveram um papel primordial nos levantamentos populares que ocorreram durante a Primavera árabe, em especial Egipto, Tunísia, Líbia e Bahrain. Não apenas como ferramentas de comunicação e organização de protestos, mas sobretudo como janelas abertas para que o mundo tomasse conhecimento do que estava a acontecer nestas partes do mundo, onde a liberdade de expressão era altamente reprimida.

A ideia de que as redes sociais dariam voz às populações de regiões oprimidas dava-nos esperança de estarmos mais perto do fim da história (nos termos de Fukuyama), de uma era em que o jornalismo de cidadãos permitiria ultrapassar as mordaças colocadas nos órgãos de comunicação locais. Criaram-se movimentos poderosos, elegeram-se políticos com ideias novas, mudou-se o mundo numa década. E no fim do arco-íris, quando não estávamos a olhar, o que aconteceu foi que nos mataram essa Primavera.

O assassinato brutal do jornalista Jamal Khashoggi, na embaixada da Arábia Saudita na Turquia, levou à descoberta de um programa insidioso da coroa saudita para intimidar os seus críticos. À semelhança da estratégia russa, o príncipe Mohammed bin Salman criou uma “fábrica de trolls” para contrariar e abafar as vozes dissidentes nas redes sociais, indo ao cúmulo de levar um empregado saudita do Twitter a espiar contas relevantes em prol do poderoso reino árabe.

É impossível ignorar o estado calamitoso das redes sociais em 2018. A ascensão do inenarrável Jair Bolsonaro deve muito à manipulação do WhatsApp, Facebook e Twitter com uma das maiores campanhas de desinformação de que há registo. O ambiente envenenado em que vão decorrer as eleições intercalares nos Estados Unidos continua a dever muito à interferência russa e às contas falsas e inflamatórias que espalham mentiras pelas redes sociais. Portugal tem a sua própria rede de disseminação de falsidades, conforme se descobriu com o incrível trabalho de Paulo Pena no DN este fim-de-semana sobre os sites de ‘fake news’ de João Fernandes, um empresário de Santo Tirso. E o pior de saber isto tudo é perceber que a verdade não chega para convencer as vítimas de manipulação.

Continuo a ver partilhados na minha cronologia artigos sem pés nem cabeça, atribuindo declarações inexistentes ao político A ou B, inventando números para justificar medidas, apelando à indignação constante e absoluta das pessoas que não se dão ao trabalho de verificar factos.

A culpa é delas por serem crédulas e preguiçosas. A culpa é nossa por sermos cúmplices desta falta de confiança nos meios tradicionais. A culpa é dos Zuckerbergs e dos Dorseys, que deixaram os “trolls” e os bots crescer como ervas daninhas nas suas plataformas. A culpa é de todos os que não perceberam que a democracia estava em risco.

A esperança de que as redes sociais trariam mais participação democrática e vozes refrescantes tornou-se no reconhecimento de que os tiranos no poder nunca o vão ceder voluntariamente. A suprema ironia é que muita gente acredita nas mentiras e teorias da conspiração porque acha – não sem ponta de fundamento – que os meios tradicionais ocultam a verdade. E, como tal, estas “revelações” nas franjas da internet, estas indignações em forma de meme, são a verdade escondida.

É uma forma de pensar difícil de contrariar, até mesmo quando se trata de pessoas aparentemente bem informadas. Recordo o dia em que, no balcão de um sports bar em Downtown Los Angeles, um amigo meu explodiu de indignação quando eu disse não acreditar nas teorias da conspiração relacionadas com o 11 de Setembro. Jurou que o seu tio sabia de tudo, que o ataque foi uma explosão ordenada pela administração Bush para fazer desaparecer os documentos de um dos edifícios adjacentes ao World Trade Center. Os olhos esbugalhados, a voz elevada, as mãos agitadas, uma ferocidade que eu não lhe conhecia. No final, fez a pergunta mais desconcertante: “Consegui fazer-te mudar de opinião?” Invoquei a 5ª Emenda. É claro que não.

Ninguém muda de opinião depois de dez minutos de berraria. Será que alguém muda de opinião por levar ensaboadelas nos comentários do Facebook? Talvez não, mas a manipulação nas redes sociais funciona como a água que vai cozendo o sapo. É isso que a torna tão difícil de combater: as vítimas não percebem que estão a ser cozidas, e se for preciso até ajudam a levantar o lume.

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