Mercadona, um corredor de fundo

As incógnitas não impedirão a empresa de avançar no mercado português devagar, porque tem a pressa e alma de corredor de fundo.

Três anos depois do primeiro passo, no dia 2 de julho, a Mercadona abriu finalmente a sua primeira loja em Portugal, na cidade de Gaia, depois de, ao longo dos últimos meses, ter feito bater de ansiedade o coração dos retalhistas portugueses e criado enorme expectativa junto dos consumidores que, a exemplo dos espanhóis, já muitos lhe atribuíram um estatuto de culto.

Segundo a imprensa escrita, as pessoas começaram a chegar horas antes da abertura e, os primeiros clientes, ao entrarem na loja, foram surpreendidos pelo presidente Juan Roig e respectivos colaboradores, a cumprimentar e a dar as boas-vindas aos seus “chefes”.

Rapidamente se fizeram filas para o bacalhau, para o presunto e para o pão, confecionado na loja, em fornos de produtores portugueses, os quais são responsáveis por fornecerem metade dos 6000 SKUs que constituem o sortido da loja.

Como novidades da oferta da Mercadona os primeiros clientes puderam apreciar a secção de Pronto a Comer - constituída por 35 pratos, dos quais 23 de receitas portuguesas-; os carrinhos que não precisam de moedas, havendo uns com maior e outros com menor capacidade; a fortíssima secção de cosmética e perfumaria que terá sempre uma colaboradora especialista para assistir na venda e, no final, os produtos embalados em sacos de papel, exceto a fruta e os legumes. E, tudo isto em 1900 metros quadrados, de corredores largos e luz natural.

Esta primeira loja, à qual se irá seguir a abertura de mais nove até Dezembro, é o resultado de um grande esforço de adaptação ao mercado português, de uma logística extremamente eficiente e cada vez mais automatizada nos seus processos (em 2023 o entreposto de Lisboa será 100% automatizado) e de uma ambição tranquila e paciente mas também extremamente responsável e consistente.

Estou convencido que a Mercadona vai chegar, ver e vencer, pois o seu modelo de negócio, assente, principalmente, nos pilares fornecedores e colaboradores, faz toda a diferença face à concorrência. Mas, tal não acontecerá de um momento para o outro, pois a empresa e o seu Presidente Juan Roig, têm perfeita consciência que os seus mais diretos concorrentes, há muito sedimentados no mercado português, também têm confiança nos seus pontos fortes e trabalham-nos bem, até anteciparam, nos últimos anos, algumas mudanças preventivas e sabem que dificilmente, a curto ou médio prazo, a Mercadona se aproximará das quotas de mercado que hoje possuem, de quase 30%, como são os casos do Continente e Pingo Doce ou mesmo dos 10%, do Lidl.

Depois subsistem algumas dúvidas que só o futuro poderá esclarecer, nomeadamente, a ainda escassa penetração no território português, o abdicar explícito das estratégias promocionais (e neste particular temos os exemplos do Pingo Doce e do Lidl que recuaram na sua estratégia de EDLP e entraram no caminho das pedras e sem regresso das promoções) ou o impacto, ao nível dos PVPs das diferenças das taxas de IVA (23-13 e 6%) relativamente a Espanha (21-10 e 4%) que poderão não permitir uma diferenciação clara dos preços na percepção dos consumidores portugueses e, consequentemente, a desilusão destes.

Mas, estas incógnitas não impedirão a empresa de avançar no mercado português devagar, porque tem a pressa e alma de corredor de fundo. E, pelo que deles conheço, há mais de 30 anos, estou convicto que a estrutura acionista familiar da empresa, a sua robustez financeira e qualidade de gestão, o admirável modelo de negócio e a excelente relação preço/qualidade das suas MDDs irão, nos próximos anos, conferir à Mercadona, o valor que realmente merece.

Docente e investigador na UNIDCOM/IADE/IPAM

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