Meus queridos filhos 

A minha mãe diz que as coisas boas, os elogios, devem ser ditos em vida e não em cima do púlpito, entre a comunhão e a bênção final, quando as pessoas já cá não estão para ouvir. É como na história do Tom Sawyer, quando o herói rebelde chora piedosamente ao ouvir o comovente elogio fúnebre que lhe fazem julgando-o assassinado pelo índio. Ele não sabia que era tão querido apesar de tudo, nunca lhe tinham dito, e comove-se sem desconfiar que é ele o morto por quem todos choram.

Sei que a morte nos leva a exagerar, e ainda bem, mas nos elogios mais vale a mais do que a menos. É como os beijinhos aos filhos, mais vale dar muitos e muitas vezes que poucos e de vez em quando. Beijinhos, abraços apertados e declarações de amor não têm número certo e se tiverem é em excesso.

Meus queridos, conhecemo-nos desde que nasceram e conhecemo-nos bem, acho eu, mas tenho dúvidas que saibam tudo o que pensamos de vocês. A nossa preocupação em vos educar atrapalha o nosso romance entre pais e filhos. Não deve haver nada mais complicado do que amar e educar ao mesmo tempo: educar disfarça o amor. No outro dia o vosso irmão mais novo perguntava-me se eu gostava dele, com dúvidas sobre a solidez da nossa relação. Com o coração pequenino e culpado, pus as culpas desta pergunta na falta de vocabulário do nosso delfim - zangar: devia ser esse o verbo que lhe estava a faltar. Ainda está zangada comigo? Ou esse, ou desiludir. Ou então - o mais provável - queria que eu lhe fizesse uma declaração amor para o aconchegar.

Até muito tarde é a certeza da nossa paixão por vocês que vos aconchega. Aquilo que elogiamos, valorizamos em cada um, é o vosso espelho. Mas vocês crescem a uma velocidade alucinante o que nos rouba tempo e ficam coisas por dizer. Explico: nós, pais, achamos que o nosso papel principal é preparar-vos para a vida, que a nossa vida em comum é uma espécie de simulacro da vida real. Sabem a história de "ensinar a voar"? É: nós achamos que somos pássaros. Sei que é estúpido, que não faz sentido, mas é assim que perdemos o tempo que devíamos poupar em apenas estar e não em ensinar. Até porque já lemos coisas suficientes para saber que é o exemplo que educa e não as conversas, os castigos e as regras. Essas só servem para nos permitir conviver, viver todos juntos sem loiça suja espalhada pela casa, roupa suja na sala e a porta do frigorífico sempre aberta. Mas é só isso. Ser família é muito mais do que isso.

Meus queridos filhos, vocês crescem a uma velocidade alucinante e talvez não saibam que têm mais qualidades que defeitos. Acho que nunca vos dissemos isto assim. E melhor ainda: os vossos defeitos corrigem-se e é esse o milagre da vida. Não sabem o quanto me espanto todos os dias com cada um, com as vossas personalidades, opiniões, carácter, sentido de humor, feitio; com toda essa complexidade que vos torna únicos e irrepetíveis. E isto tudo apesar de nós, do nosso esforço em endireitar o que nunca esteve torto, em moldar o que sempre quis crescer direito, em vos chatear com coisas que que não interessam um caracol. Agradeço e conforta-me a vossa resiliência em serem quem são apesar dos nossos esforços em vos moldar. Não sei como seria se por cada crítica, lição, correção ou discurso inflamado sobre as vossas falhas, fossemos obrigados a pronunciar um elogio ou a proferir um discurso inflamado sobre as vossas virtudes.

Não prometo nada, até porque nos vamos rir de tanta pieguice, mas vou tentar.

Jurista

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