México: a porta de entrada nas Américas

Quando lemos a palavra México imaginamos, provavelmente, a cena de um filme, com muitas armas, drogas, túneis e mulheres bonitas, à boa moda da Netflix. Na realidade, porém, o México é muito mais que as suas distorcidas imagens hollywoodescas. Sobretudo, agora que os resultados das eleições intercalares fragilizaram grandemente AMLO e o pesadelo Lula paira sobre o futuro do Brasil, deveríamos ver o México como a porta de entrada portuguesa nas Américas, tanto Latina como Anglo-saxónica.

Pela perspetiva de estabilidade política, pela recusa do povo mexicano em converter o país numa Venezuela do Norte e por variadíssimas outras razões - além dos deliciosos tacos e margaritas, claro! - o México converteu-se numa aposta perfeita para os executivos e empresários portugueses que ambicionem desenvolver as suas carreiras, bem como entrar ou alargar a sua área de influência no mercado das Américas.

O México goza de uma economia volumosa, ampla e sofisticada, sendo de momento a 15ª maior do mundo. Forma parte do bloco económico, social e cultural da América do Norte, mantendo uma relação privilegiada tanto com os Estados Unidos como com o Canada, via T-MEC, o tratado comercial com maior valor económico em todo o mundo.

Apesar do marketing "America First", o show-off que blindava a realpolitik do ex-presidente Trump, a equipa de AMLO sempre manteve relações estreitas com Washington, pelo que o México desempenha hoje um papel-chave no T-MEC. Aliás, não só no T-MEC como em diversos acordos comerciais com os países economicamente mais relevantes do mundo. Além disso, ao contrário dos portugueses, os empreendedores mexicanos podem aceder aos vistos E1 e E2. Em suma, a diplomacia Mexicana está bem e recomenda-se.

No que respeita a infraestruturas, o México integra-se em programas supranacionais como a fusão das linhas ferroviárias norte-americanas, a qual ligará o Canadá (Ottawa) ao Pacífico Mexicano, atravessando os Estados Unidos. Qual será o efeito disto? Imaginem uma espécie de Sines com esteroides, muitos esteroides. Este projeto irá, sem dúvida, catapultar a já cosmopolita Cidade do México, transformando-a num "porto" logístico fulcral que servirá de plataforma, não somente para o norte da América, mas também para a América Central, América do Sul, Europa e Ásia.

Fazendo um zoom-in nas relações com os EUA, o México é um parceiro comercial privilegiado, tendo atingido $100 Biliões de dólares de transações (sim, com B) apenas nos primeiros dois meses de 2021. Em números redondos, isto significa três economias portuguesas por ano. Por outras palavras, os empresários americanos não se deixam impressionar pelas enfadonhas mañaneras de AMLO (*), entre outras atrocidades de quem gostaria de tornar o México em mais um faminto "paraíso" socialista. Pois, sabem que, felizmente, o povo mexicano ainda é quem mais ordena.

Além das famosas cantinas, naturalmente, todos estes fatores têm convertido a terra dos antigos maias num país extremamente atrativo em termos económicos, onde florescem grandes grupos nacionais e onde diversas multinacionais localizam as suas operações na América do Norte. Fruto desta dinâmica, as corporações mexicanas aceleraram os seus processos de transformação num ritmo sem precedentes. Hoje, o México conta com autênticas referências mundiais nos mais diversos setores da economia: turismo, logística, IT, fintech, farmácia, engenharia aeroespacial, indústria automóvel, química, alimentar, siderurgia, entre outros.

Com sede no México temos, por exemplo, o Grupo Bimbo, líder indiscutível da indústria alimentar, com cerca de 135.000 funcionários dispersos pelo mundo; a cadeia de retalho OXXO, com perto de 20.000 pontos de venda de conveniência e em grande crescimento por toda a América Latina; a cimenteira CEMEX, top 3 mundial, estudada nas mais prestigiadas escolas de gestão internacionais; a Aprecia Financiera, hoje uma startup de referência no Fintech global; e, claro, a Cerveja Corona que, entretanto adquirida pela AB InBev, é a bebida importada que mais vende nos EUA, além de conhecida e consumida mundialmente.

Estes, e muitos outros exemplos, comprovam o nível de sofisticação e desenvolvimento que o mercado mexicano alcançou. Num tecido empresarial em que empresas familiares deram origem a grupos geridos por profissionais altamente qualificados, esta evolução deu lugar a uma procura intensa por quadros. Consequentemente, o país desenvolveu uma rede de universidades e centros de inovação de renome mundial, tais como o Tecnológico de Monterrey, o IPN, a UNAM e Universidad del Mar, que têm formado recursos humanos de excelência.

O idioma espanhol, apesar de ter a sua complexidade e não ser tão fácil de dominar quanto parece, também não oferece dificuldades de maior no âmbito de uma comunicação básica ou razoavelmente fluente, o que favorece a integração dos portugueses. Além disso, trata-se do segundo idioma mais falado no mundo, pelo que é sempre uma ferramenta bem-vinda para quem ambiciona uma carreira global.

Outro aspeto interessante é a geografia. O norte do México é americano, uma extensão do Texas e da Califórnia - pragmático, orientado para resultados. É onde ficam cidades como Monterrey ou Torreon, as quais gozam de um estilo de vida comparável ao de Austin ou Houston. Já o centro do país é espanhol, com os seus jantares tardios e atenção à comida. E o sul é indígena, com os seus povos, comidas e idiomas. Contudo, apesar das diferenças, o papel da família é fulcral, sendo este o elemento comum que subjaz a todas estas regiões e culturas.

Por fim, é inevitável falar de insegurança. Trata-se, sem dúvida, de uma questão a ter em conta. No entanto, apesar de tudo, a realidade é bem distante da que nos mostram as series da Netflix ou os documentários mais sensacionalistas sobre criminalidade e narcotráfico. Além disso, cada país, cidade ou zona tem a sua regra, ou melhor, conjunto informal de normas e condutas para viver em segurança, e o México não é exceção. Com efeito, basta passar uma vista de olhos pela quantidade de turistas e expatriados que lá escolhem residir, seja por motivos profissionais ou de reforma, para poder comprovar que a realidade do país é muito menos dramática que a ficção.

Para os portugueses, aliás, talvez a dificuldade esteja mais em ir do que em ficar. Pelo menos, se forem de avião, já que a TAP não tem quaisquer voos diretos para a Cidade do México, apesar de continuar a operar voos diretos para "destinos promissores" em África, tais como o Dakar.

(*) Longos discursos matinais do Presidente transmitidos pela TV.

João A.B. da Silva, Economista. M&A Advisor at Nestle Health Sciences

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