Opinião

Ministra do Mar: pretextos diversos para uma saída

Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens
Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens

Quem conhece o perfil da Sra. Ministra sabe que dificilmente aceitaria continuar a dirigir um Ministério amputado das parcelas que mais a entusiasmam

Para a grande maioria dos comentadores políticos a saída da Ministra do Mar do Governo, Eng.ª Ana Paula Vitorino, teria a ver não tanto com a sua “perfomance” política na última legislatura, onde nalgumas áreas se fez manifestamente muito pouco e com a muita propaganda que já vai sendo habitual, mas muito mais com o facto de ser esposa doutro Ministro e ter sido vítima da aparente vontade do Primeiro-ministro em pôr cobro a relações familiares em volta da mesa do próximo Conselho de Ministros.

Mas esta explicação, embora podendo eventualmente ir ao encontro de certas preocupações, incluindo do próprio Presidente da República no auge do chamado “familygate” do anterior Governo, não tem em devida conta o facto, muito significativo, de o próximo Ministério do Mar dever vir a ser amputado, tal como já acontecia no Governo de Passos Coelho, da sua importante componente de “Portos e Transportes Marítimos”, uma área que era muito cara à Sra. Ministra, dado que, pelo seu perfil profissional anterior, dominava técnica e politicamente os assuntos, mas que vai mudar de tutela para outro Ministério “concorrente”…

Isto independentemente do anterior arrastamento das greves nos Portos e das quebras de 4 a 5% registadas nos movimentos dos Portos nacionais em 2018 e 2019, mau grado os significativos aumentos em volume entretanto registados no comércio externo nacional (entradas e saídas de mercadorias de/para outros países).

Quem melhor conhece o perfil e a personalidade da Sra. Ministra sabe que ela dificilmente aceitaria continuar a dirigir um Ministério amputado justamente das parcelas que mais a entusiasmam, onde detém mais conhecimentos e para onde se perspectivam os maiores investimentos públicos e privados nos próximos anos.

Para além disso, uma tal decisão acaba por colocar em causa tudo aquilo que, enquanto tutela, tinha vindo a defender, no sentido de ser assegurada um “visão holística” e integrada do conjunto das actividades relacionadas com a Economia do Mar e para a duplicação, de todo irrealista, do seu peso no Produto Interno Bruto nacional até 2023.

Esta anunciada amputação cirúrgica dos “Portos e dos Transportes Marítimos” seria porventura um saudável e mais que compreensível pretexto para uma saída digna dum Membro do Governo, sem ter que dar excessiva atenção a outros pretextos e razões, que são naturalmente avaliados, muitas vezes de forma solitária, pelos Primeiros-ministros de qualquer Governo.

 

António Duarte Pinho, ex-conselheiro técnico para as Pescas e Política Marítima Integrada na REPER/Bruxelas e ex-adjunto do gabinete do Secretário de Estado das Pescas

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