Modelo empobrecedor

Portugal adotou nos últimos 30 anos uma política económica baseada no apoio às exportações, no abandono do mercado interno, de grande liberalismo no plano social e privatização de todas as funções essenciais do Estado. Ao mesmo tempo desbaratou milhões de milhões de euros de apoios europeus. Os cada vez mais baixos salários comparativamente com os nossos parceiros europeus e o empobrecimento generalizado são as consequências desta política.

O centro nas exportações desacompanhado de políticas industriais apropriadas significou o domínio das nossas exportações por empresas estrangeiras que aqui vêm aproveitar a mão-de-obra barata e fazer uma pequena parte dos seus produtos. Esta função secundária fica bem patente quando verificamos que as maiores exportadoras são igualmente as maiores importadoras e que o valor-acrescentado em Portugal é mínimo. Na verdade pouco mais é que os baixos salários pagos. Por outro lado estas empresas estrangeiras beneficiam dos fundos e apoios comunitários destinados a Portugal. Esta política de apoio à exportação poderia chamar-se igualmente de fomento à importação.

O abandono do mercado interno. O mercado nacional é muito reduzido devido aos baixos salários, pelo que hoje mesmo o que se vende em Portugal se destina em grande medida a turistas e reformados estrangeiros que aqui vivem. Para muitos comércios são a maioria dos seus clientes.

No plano social e económico o liberalismo impera. É fácil e barato despedir, contratar por prazos curtos, empregar eternamente de forma precária, impedir a organização sindical, impor horários de trabalho infernais, obrigar os trabalhadores a fazer horas extraordinárias, fugir às regras de higiene e segurança no trabalho, iludir as regras ambientais.

Socialmente é aceitável ser racista, emitir opiniões fascistas, ou mesmo insultar e ameaçar os ativistas antirracistas ou as minorias sociais mais discriminadas. Qualquer pessoa que o faça pode mesmo ser candidato à

Presidência da República e fundar um partido para ter horas de cobertura mediática. O liberalismo nesta área é completo.

As empresas públicas lucrativas foram privatizadas e as que tinham um custo social foram encerradas. A gestão privada é mais eficaz e os bens serão mais baratos. Mas a realidade é que os produtos encareceram (veja-se a eletricidade que pagamos a um preço dos mais elevados da Europa e que impede os portugueses de ter casas aquecidas como existem na generalidade dos países europeus) e quando faliram o Estado cobriu os prejuízos dos privados (Banca, Tap, etc.).

As funções do Estado foram privatizadas ao extremo de hoje mais de 40% do orçamento da saúde ser canalizado para os privados, ao mesmo tempo que centenas de milhares de portugueses continuam sem médico de família.

Tudo isto a propósito da publicação no Eurostat de estatística sobre os solários na União Europeia que coloca Portugal na penúltima posição apenas acima da Bulgária.

Trata-se de comparação em Paridade de Poder de Compra. É certo que em Euros os nosso ordenados médios apesar de baixos estão alguns lugares mais acima, mas quando se verifica que poder de compra é que proporcionam aos que os recebem, então caímos para penúltimo. Uma boa forma de aferir o nosso nível de vida.

Mas, infelizmente, este modelo que nos coloca na cauda da Europa, não está esgotado e pode perpetuar-se. Podemos continuar a empobrecer. Em breve estaremos em último lugar e depois o inferno é o limite.

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