Muito além dos cartéis

Sobretudo pela dimensão que têm, não há dúvidas que os países fulcrais da América Latina são o Brasil, no hemisfério sul, e o México, no hemisfério norte. No entanto, convém igualmente não duvidar que há mais vida na região LATAM para além destes gigantes, a começar por uma das nações mais ficcionadas pelo cinema americano e pela cultura pop em geral. Refiro-me à Colômbia, naturalmente.

Com um PIB de 271 biliões de dólares, em 2020, a Colômbia faz parte do grupo de países latino-americanos que têm crescido acentuadamente desde a transição do século; tais como o Chile ou o Perú, com a diferença de apresentar maior potencial em termos de população. Trata-se do terceiro mais populoso, com aproximadamente 51 milhões de habitantes, atrás do Brasil e México. Desenganem-se, portanto, os fãs da Netflix e das séries e documentários sobre Pablo Escobar. A economia colombiana é bem real e se voltar a ter um impulso, no contexto pós-pandémico, tem muito por onde crescer.

Não pretendo, evidentemente, pintar um quadro fantasioso sobre um país que, apesar de promissor, não tem um grau de maturidade económica, autonomia produtiva e capacidade de expansão global comparável ao dos mencionados gigantes. Com efeito, no Top-10 das maiores empresas colombianas, quatro são estatais ou dependem direta ou indiretamente do estado. São elas a Ecopetrol (Petróleo e Gás), o Grupo EPM (Empresas Públicas de Medellín), o Grupo ISA (Energia elétrica, infraestruturas) e a Nueva EPS (Entidade Promotora de Saúde). Quanto às privadas, três são controladas por multinacionais estrangeiras. Nomeadamente, a Terpel (Petróleo e Gás; Copec, Chile), o Grupo Éxito (Retalhista; Grupo Casino, França) e a Claro Móvil (Telecomunicações; America Móvil, México).

Todavia, a economia colombiana possui indiscutivelmente uma rede de companhias locais e privadas com notável dimensão, várias inclusive de alcance internacional. Neste capítulo, talvez a maior referência histórica seja o Grupo Empresarial Antioqueño, um conglomerado de empresas independentes que, sob a mesma designação informal, reúne atualmente o Grupo Sura (Investimentos e Serviços Financeiros, $5.6 B/ano), o Grupo Nutresa (Chocolates e outros Alimentos, $3.1 B/ano) e o Grupo Argos (Cimentos, $3.6 B/ano). Ou seja, o equivalente a uma faturação conjunta acima dos 12 biliões de dólares. Outro aspeto a ter em conta é o facto de, entre os dez maiores bancos (em ativos) a operar na Colômbia, seis são locais, incluindo o Top-3:

- Bancolombia (nº1º), $48.3 B, Grupo Sura - Grupo de Inversiones Suramericana (Medellín), sob a direção executiva de Gonzalo Alberto Pérez, CEO

- Davivienda (nº2), $27.7 B, Grupo Bolivar (Bogotá), fundado por Enrique Cortés Reyes;

- Banco de Bogotá (nº3), $27.6 B, Grupo Aval - Aval Grupo Acciones y Valores (Bogotá), de Luis Carlos Sarmiento;

- Occidente (nº5), $10.7 B, Grupo Aval;

- GNB Sudameris (nº7), $8 B, Grupo Gilinski, fundado por Isaac Gilinski Sragowicz, estando agora sob a propriedade e direção executiva do filho, Jaime Gilinski Bacal, CEO;

- Banagrario - Banco Agrario de Colombia (nº8), $7.2 B, estatal;

- Banco Popular (nº10, $7.1 B), Grupo Aval.

No que respeita os bancos estrangeiros com mais ativos locais temos o BBVA Colômbia (nº4, $17.8 B, Espanha), o Scotiabank Colpatria (nº6, $9.1 B, controlado a 51% pela Habitat, Chile) e o Itaú Corpbanca (nº9, $7.2 B, Brasil) e o Banco Popular (nº10, $7.1 B, Espanha).

No meio deste cenário, entretanto, é claro que existe uma faceta clandestina no país; a qual, de certa forma, acaba por fazer alguma justiça aos filmes de Hollywood e séries da Netflix. Efetivamente, os cartéis não deixaram de operar e as FARC tampouco declararam insolvência. Fora dos centros urbanos deparamo-nos, portanto, com este tipo de grupos criminosos e movimentos revolucionários armados. Estes desenvolveram os seus núcleos duros no campo ou na floresta, ao mesmo tempo que mantêm uma presença tangível no submundo das cidades e uma obscura influência sobre certos poderes políticos e económicos. Por vezes, aliás, com um alcance assustador. Para termos uma ideia, as FARC chegaram a estar representadas nos encontros do Foro de São Paulo - que reúne a maioria dos partidos comunistas e socialistas da América Latina, incluindo o PT, de Lula da Silva - tendo inclusive sido congratuladas pelo ex-Presidente venezuelano Hugo Chávez.

Felizmente, nas cidades, o cenário é outro. Encontramos uma população urbana cada vez mais sofisticada, empreendedora e cosmopolita. O elevado uso de internet e serviços associados é um sinal esclarecedor de que os cidadãos colombianos são proactivos na revolução digital, operada nas últimas décadas, e preparados para as novas revoluções tecnológicas que a curto/médio prazo se adivinham. Acresce também o facto de que, hoje em dia, nenhuma cidade da Colômbia está entre as 25 mais perigosas do mundo (por taxa de homicídios), sendo que Bogotá e Medellín não constam sequer do top-50. Escusado será dizer que nenhuma delas é um paraíso de segurança - não estamos propriamente em Vila Viçosa ou Santa Marta de Penaguião - mas, com as devidas precauções, é possível levar uma vida sem transtornos.

O Distrito de Bogotá tem cerca de 11 milhões de habitantes, um PIB de 87.2 biliões de dólares e um sistema de transportes públicos que se tornou uma referência internacional pela sua eficiência, inovação e baixo-custo. É lá que reside o poder financeiro, nomeadamente dos bancos colombianos Davivienda, Banco de Bogotá, GNB Sudameris, Banagrario e Banco Popular; bem como dos estrangeiros BBVA Colômbia, Scotiabank Colpatria e o Itaú Corpbanca. Na capital do país, também estão sediadas a petrolífera Ecopetrol ($13.1 B/ano), a prestadora de serviços de saúde Nueva EPS ($2.6 B/ano), a cadeia de supermercados Alkosto ($1.9 B/ano), as lojas de hard discount Tiendas D1 ($1.9 B/ano), entre outras; como a mexicana Claro Móvil ($3.4 B/ano), a companhia aérea colombiana-brasileira Avianca ($1.6 B/ano) ou a Bavaria ($1.8 B/ano) - empresa de bebidas e cerveja nativa, entretanto comprada pela Molson Coors Beverage Company (Canadá)

Popularmente conhecida pela figura de Pablo Escobar e seu cartel, Medellín impõem-se na economia real pela sua rede de indústria e comércio. Trata-se, no fim de contas, da capital do Departamento de Antioquia, onde nasceu o mítico Grupo Empresarial Antioqueño (GEA), um conglomerado de 125 empresas, responsáveis por 8% do PIB do país - destacando-se particularmente os já mencionados Grupo Sura, Grupo Nutresa e Grupo Argos, ainda lá sediados. Além destes, serve também de residência ao maior banco do país, Bancolombia, bem como ao Grupo EPM (Empresas Públicas de Medellín, $5.1 B/ano), ao Grupo Isa ($2.6 B/ano) e ao retalhista Éxito ($4.1 B/ano) - que fazia parte do GEA até ser vendido aos franceses do Grupo Casino. Deste modo, com uma população de 4 milhões, Medellín soma um PIB de 14.2 biliões de dólares - cerca de 40% do PIB total do Departamento de Antioquia ($35.1 B). E como cereja no topo do bolo, é hoje considerada um modelo de inovação urbana para as cidades do futuro, no âmbito da equidade e bem-estar.

Assim, a Colômbia parece estar num caminho promissor. Sobretudo, após o tratado de paz de 2016 com as FARC, o qual, apesar das críticas, faz-se respeitar. Deste modo, espera-se que o bom senso prevaleça e que os colombianos prossigam com o legado do Nobel da Paz, Juan Manuel Santos, que pôs termo aos 50 anos de guerra civil. E, já agora, que não se deixem ludibriar pela conversa mole do ex-guerrilheiro das M-19, Gustavo Petro.

Neste momento, a Colômbia é o 2º país da região LATAM com melhores índices de reativação pós-pandémica e uma pontuação de 72,9% no Global Normalcy Index (The Economist), apenas superada pelo México (81,3%). Com efeito, já no primeiro semestre de 2021, o país recebeu 110 projetos de investimento estrangeiro, proveniente de 28 países, estimando-se que venham a criar 90.400 novos postos de trabalho. Além disso, possui infraestruturas favoráveis ao comércio global, entre as quais se destacam cinco portos marítimos fundamentais: Buenaventura, Tumaco, Santa Marta, Cartagena e Barranquilla.

Quem já apanhou este barco foi o grupo Jerónimo Martins que, com a sua cadeia de Tiendas Ara, tem conquistado o seu espaço frente a uma concorrência de peso (Éxito, D1, Olímpica, Alkosto); sendo hoje a 37ª maior empresa a operar na Colômbia em termos de faturação ($1 B/ano). Algo que, inevitavelmente, nos leva a perguntar: Quando teremos o privilégio de ver nesses, e noutros estabelecimentos comerciais colombianos, produtos da Vista Alegre, Talheres Cupitol, Renova, água de Monchique com Ph9.5, Vinho do Douro, Dão, Alentejo, azeite, entre outras mercadorias portuguesas? Uma coisa é certa, qualidade não nos falta. O que talvez ainda nos falte é visão para descortinar oportunidades nesta Colômbia que se projeta além dos Escobares e dos cartéis.

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