Must have or Nice to have?

Existe normalmente uma correção entre o investimento em inovação, nomeadamente conhecimento, capital de risco, R&D, empreendedorismo, ambiente regulatório e ativos intangíveis e o desenvolvimento económico, social e ambiental dum país, na criação de marcas, produtos e patentes relevantes.

Dois dos países mais eficientes em inovação a nível mundial são a Suíça, que é o segundo país a nível de investimento e o primeiro em termos de resultados, e a Suécia, terceiro em investimento e segundo em resultados.

Os resultados de inovação advêm dum investimento inteligente e continuado num conjunto balanceado de ativos de inovação. Apesar de em momentos como na crise do subprime o investimento em inovação (incluindo capital de risco) ter reduzido em proporção, a evidência mostra que os países e empresas que mais investem em inovação em tempos de crise são aqueles que recuperam mais rapidamente e desenvolvem novos modelos de negócio assentes nas novas dinâmicas de mercado e tendências sociais.

No mercado bolsista existe também um incentivo e valorização das empresas inovadoras com estratégias claras de diversificação inteligente dos seus modelos de negócio. Em média, o valor de mercado é 54% superior em empresas que têm níveis mais elevados de investimento em inovação e diversificação do seu modelo de negócio. Este retorno positivo tem expressão mesmo no curto prazo e não apenas no médio e longo prazo.

Nesta crise, o mercado tem valorizado bastante empresas inovadoras, como a Tesla, que está bem posicionada para aproveitar um contexto de mudança regulatória, preocupações sociais e ambientais, procura de mercado e maturidade tecnológica.

Curiosamente, ao contrário da crise anterior, os níveis de investimento de capital de risco têm batido recordes em vários mercados, nomeadamente no norte americano, que registou um recorde de fundraing, em fundos de capital de risco, 14% acima de 2019, no valor de $130Bn, e um recorde também nas mega rondas de investimento (>$100M). O mesmo aconteceu na Europa, com uma atividade de VC na ordem dos €42,8Bn e um aumento das mega rondas (>€25M).

Também no capital de risco corporativo o ano de 2020 registou um recorde a nível Europeu, com um aumento de 14,8%, e um montante de €19,4Bn, o que mostra que as grandes empresas estão a procurar estratégias de crescimento não apenas no seu core, mas também através de investimento em startups.

As startups, são de facto os principais promotores de nova inovação e de diversificação de modelos de negócio e cada vez mais um parceiro incontornável nos processos de inovação corporativa. Cada vez mais a grandes empresas estão abertas e envolvidas em processos de inovação aberta com startups.

As empresas mais dinâmicas são aquelas que combinam uma visão de inovação top-down muito forte e clara, com um CEO e lideranças altamente envolvidas, metodologias robustas de inovação assentes numa cultura e talento de qualidade e com autonomia, e uma abertura explícita e consequente à colaboração com startups e outros players externos. A estratégia e a inovação devem desempenhar funções complementares no desenvolvimento de modelos sustentáveis de crescimento das empresas.

Esta crise tem contribuído para amadurecer as dinâmicas e a prática de inovação. A inovação tem que ser cada vez mais estratégica, mais focada em resultados concretos, mais focada nas prioridades da gestão, mais focada em experimentação e com investimento focado em dados, uma inovação mais descentralizada e profissionalizada, tendo em conta os desafios de sustentabilidade que todos enfrentamos coletivamente.

As crises, particularmente em mercados mais frágeis e descapitalizados como o nosso, criam uma grande pressão sobre as gestões. É preciso criar um sentido de urgência, uma reprioritização das estratégias de inovação acompanhada por uma realocação inteligente de recursos. É preciso ter muito atenção para não confundir o "must have" com o "nice to have". A inovação tem de ser um "must have", mas para isso tem que ser pensada de forma verdadeiramente estratégica e consequente.

Cofundador e CEO da Beta-i

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de