Opinião: João Coutinho

Na paragem de autocarro, a ver passar o Porsche

Banca de Jornais
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O que os media escrevem, ou dizem, tem uma influência gigante no comportamento das pessoas, para o bem ou para o mal.

Nunca achei grande piada a anedotas, mas havia uma que me entristecia sempre que ouvia alguém contar. Era aquela velha piada sobre dois homens à espera do autocarro que viam passar um Porsche. Dizia a anedota que, se os amigos na paragem fossem americanos/alemães/ingleses, não iriam descansar enquanto não trabalhassem o suficiente para conseguir comprar um carro igual ou melhor. Se os dois fossem portugueses, tudo o que queriam é que o Porsche se estampasse contra o primeiro poste.

Infelizmente, tenho-me lembrado desta história sempre que venho de Portugal, carregado de revistas e jornais. No ano passado, houve algumas capas que me chamaram à atenção. Atenção, que não compro revistas cor-de-rosa, nem o Correio da Manhã ou o Diabo.

No verão, António Costa deu uma entrevista a uma revista semanal. E publicou, no Twitter, as fotografias tiradas no seu escritório, rodeado de livros, quadros e alguns pertences pessoais entre os quais um Apple Watch. As fotos foram escrutinadas ao limite. O modelo do relógio do primeiro-ministro custou 1300 euros. Vejam só! Esta notícia virou capa de vários jornais. Há cerca de um ano e pouco, Madonna apaixonou-se por Portugal e mudou-se para Lisboa. Chamou-me à atenção o alvoroço que se gerou sobre os lugares de estacionamento que a diva do pop precisa para a sua equipa. A notícia é tão mesquinha que chegou a Espanha e a outros países. Desde que se estabeleceu, os media ainda não pararam de se meter com a senhora. Ora é porque quer ter vantagens por ser uma celebridade, ou pelo preço dos palácios que procura, ou pelo estacionamento. Paddy Cosgrave é o empreendedor irlandês que trouxe a Web Summit para Lisboa. Só em 2018, assistiram ao evento 70 mil pessoas. Os headlines não foram sobre o impacto que um evento destes pode ter na vida da cidade, no prestígio que dá ao país, mas sim porque Paddy deu um jantar no Panteão Nacional. Amália e Eusébio rodeados por croquetes e canapés. Um escândalo! Se ele deu lá o jantar é porque alguém lhe abriu a porta, duvido que tivesse as chaves. Por fim, Cristina Ferreira. Tanta tinta correu quando foi da TVI para a SIC. As revistas e os jornais que li estavam indignados com o salário que a apresentadora ia ganhar. Não interessa o percurso, nem o mérito. Interessa o salário, que não é justo, porque ganha mais do que todos nós.

E que tal se os headlines fossem antes:

1. “Como trabalhar para ter o sucesso de Cristina Ferreira?” Investigar o percurso empreendedor da empresária e promover o mérito, em vez da inveja.

2. “Estamos a atrair talento de topo mundial, tal como Londres, Paris ou Nova Iorque”, no caso da Madonna e do Paddy. Mostrar as vantagens que é ter gente deste calibre a viver em Portugal. A estes dois, só faltou mandá-los para a terra deles, mas o nosso país é tão bom e as nossas gentes tão acolhedoras, que eles decidiram ficar.

3. No caso do PM, os políticos estão sempre debaixo de fogo, mas que uma notícia destas é patética, lá isso é. O homem ganha um bom salário, tem direito a gastar onde ele quiser.

Não quero culpar apenas os jornalistas e comentadores pela anedota do autocarro. Infelizmente, é um problema cultural profundo, que só nós podemos contrariar. O que os media escrevem, ou dizem, tem uma influência gigante no comportamento das pessoas, para o bem ou para o mal.

Que tal uma resolução para 2019? Começar a promover mais o mérito e menos a inveja.

North America Executive Creative Director na VMLY&R Nova Iorque

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