Opinião

Não acredites no que ouves

Clones, voz

Em era de fake news, uma empresa canadiana criou software que falsifica a voz de qualquer pessoa com base em gravações

Há uns tempos, rodou pelo Facebook um vídeo em que Lionel Messi aparecia a falar em espanhol com legendas completamente inventadas, nas quais o argentino “elogiava” Cristiano Ronaldo. A maioria das pessoas vê vídeos sem som no Facebook, por isso nem as qualidades exímias de portunhol que todos os portugueses têm serviram para evitar uma partilha desenfreada do vídeo falsificado.

Mais recentemente, começaram a aparecer por aqui imagens com ex-membros do Partido Democrata que disseram ter abandonado as hostes para passar a apoiar o presidente Donald Trump por uma miríade de razões. A validação seria interessante, se essas fotos não fossem retiradas do banco de imagens da Shutterstock e as citações totalmente inventadas.

Começa a ser cansativo estar sempre a dizer aos amigos “olha que isso é falso” e a ser a céptica de serviço. Mas nada é tão arrepiante, neste momento, quanto as tecnologias de inteligência artificial que estão a ser desenvolvidas com potencial para serem usadas, no futuro, para criar a manipulação perfeita.

Apesar de uma imagem ter deixado de valer por mil palavras, um vídeo ou um ficheiro de áudio sempre carregam mais legitimidade que uma foto, que pode ter passado pelas artimanhas do Photoshop. Esqueçam a questão do contexto e das edições habilidosas de vídeo, não é isso que está em causa. O preocupante é o tipo de tecnologia que está a ser desenvolvida por empresas como a canadiana Lyrebird, que arranjou maneira de clonar qualquer voz a partir de um minuto de gravação verdadeira.

A novidade foi anunciada no ano passado com exemplos assombrosos, um dos quais um ficheiro de áudio de Barack Obama que foi criado por este software. Isto é, o ex-presidente dos Estados Unidos nunca disse nada daquilo, mas a voz era a dele.

A motivação por detrás da Lyrebird não é nefasta. A startup é muito pequena, com apenas uma mão cheia de programadores, e está a trabalhar em projectos interessantes. Entre os serviços estão, por exemplo, a personalização de produtos artificiais com vozes realísticas. Recentemente, anunciou uma parceria com a ALS Association, intitulada “Project Revoice”, que permite às pessoas afectadas pela doença continuarem a usar as suas vozes depois de deixarem de conseguir falar. O co-fundador do ALS Ice Bucket Challenge (lembram-se, o desafio da água gelada no Verão de há quatro anos) foi o primeiro a “recuperar” a sua voz. Através de entrevistas gravadas na altura, a Lyrebird conseguiu recriar a voz de Pat Quinn, que hoje já não consegue falar, evitando que tenha de usar vozes mecânicas e impessoais – como a voz que representava Stephen Hawking, provavelmente o mais famoso paciente ALS do mundo.

Dá para antever aqui uma série de aplicações brilhantes da tecnologia, mas também o potencial abuso. Outro serviço da empresa é a criação de um “avatar” de voz, que a pessoa pode usar onde e quando quiser, evitando usar a sua voz natural. Já para não referir a ideia de que é possível estar a falar com um sistema artificial que usa uma voz tão natural que o interlocutor não se apercebe de que do outro lado não está uma pessoa.

Em plena crise de “fake news”, quando tempo demorará até que a capacidade de falsificar a voz de alguém seja acessível através de uma app? Que implicações terá isso, não apenas para a manipulação de eleitores, mas também para o grau de confiança que temos em empregadores, trabalhadores, colegas, amigos, parceiros, familiares? Se for possível falsificar uma gravação, qual dos nossos sentidos ficará responsável por atestar a veracidade do que nos é apresentado?

Bem sei que há cavaleiros do apocalipse que olham para o progresso de forma fatalista, mas tornou-se impossível não questionar se estamos, como sociedade, preparados para tudo o que a inteligência artificial vai atirar para cima de nós. A julgar pela forma como as redes sociais são capazes de lançar o caos em democracias estabelecidas, gerar linchamentos na Índia e transformar pessoas normais em abusadores online, não estamos minimamente preparados. E há que soar o alarme antes que seja tarde.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Remessas de emigrantes voltam a disparar. Crescem 12,5% até julho

Remessas de emigrantes voltam a disparar. Crescem 12,5% até julho

O secretário Geral do Partido Socialista, António Costa (C) acompanhado pelo cabeça de lista do PS às eleições Europeias, Pedro Marques (E) e pelo Socialista Mário Centeno (D) num jantar comício em Setúbal no âmbito da campanha para as Eleições Europeias 2019. 22 de maio de 2019. MIGUEL A. LOPES/LUSA

Centeno aponta margem de 200 milhões para aumentos na Função Pública

O ministro das Finanças, Mário Centeno, discursa na  Convenção Nacional do PS a decorrer no Pavilhão Carlos Lopes, Lisboa, 20 de julho de 2019.  O Partido Socialista apresenta as suas propostas para as eleições legislativas de outubro, como conclusão das sessões organizadas sob o lema "Porque #TodosDecidem". MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Centeno. “No programa do BE passamos do fazer acontecer para fazer desaparecer”

Outros conteúdos GMG
Não acredites no que ouves