Não dá para substituir o contacto humano, faz-se o que se pode

Entretanto vamo-nos rindo porque março já vai com 135 dias e chorando porque 2020 nunca mais acaba

Da última vez que mudei de emprego, bastou um copo ao final do dia e um par de almoços. E bastou passar cinco dias com o cliente em filmagens em Vancouver para conseguirmos transformar uma relação tensa e fria numa amizade e parceria que dura até hoje. Num almoço com uma amiga portuguesa de visita, fiquei a saber que se queria mudar para Nova Iorque. Hoje trabalhamos juntos de novo. São apenas três episódios de que me lembro de um passado recente que mostram a importância do contacto humano neste negócio.

A maioria das pessoas a morar em Nova Iorque não sabe quando vai voltar ao escritório. Fala-se em setembro, no início do próximo ano, em muitas coisas, mas ninguém tem a certeza. O que eu sei é que diariamente 8,6 milhões de pessoas usavam transportes públicos em Nova Iorque (inclui turistas), quase 3 mil milhões de pessoas por ano. Por isso, a parte do contacto humano está suspensa até que se encontre cura ou vacina para o vírus e se possa voltar à normalidade.

Até lá continuaremos sem saber se quem encontramos no elevador está ou não cheio de trabalho. Sem as habituais recomendações de séries e atividades culturais ao pé da máquina do café. Sem aquele update sobre o briefing no corredor a caminho de uma sala de reuniões. Sem o almoço em que pomos a conversa em dia, damos um incentivo ou até um puxão de orelhas. Sem aqueles copos ao final da tarde a celebrar a semana que acabou, a brindar a quem se juntou a nós ou a quem nos vai deixar. Sem as festas da The Mill e do One Show no Cipriani. Até lá vamos continuar sem ir filmar a LA, ou à cidade que o realizador escolheu. Sem sentir aquela adrenalina de apresentar um pitch em pessoa. Sem o jantar em que o nosso cliente favorito diz que vai trabalhar para outra marca e nos quer convidar para o pitch.

Entretanto vamos trabalhando de Nova Iorque, Lisboa, Porto, Moncarapacho ou Chicago. Vamo-nos rindo com alguém que se esqueceu de clicar no mute. Do marido ou mulher de alguém que passou lá atrás em roupa interior. Com alguém que ficou com a imagem freezed no meio de uma apresentação. Com a batalha de gifs no chat do Teams depois da reunião que correu muito bem ou muito mal. Vamo-nos rindo a beber um vinho ao jantar, depois de nos pegarmos durante o dia para ver quem ficava com a bebé, quando ambos tínhamos reuniões. Entretanto vamo-nos rindo porque março já vai com 135 dias e chorando porque 2020 nunca mais acaba.

 

João Coutinho, north american executive creative director na VMLY&RNY

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