Não desejo o meu trabalho ao meu pior inimigo

Deparei-me, recentemente, com um estudo que inquiriu cerca de 2000 trabalhadores sobre a sua satisfação no trabalho e em que quase metade dos trabalhadores auscultados referiu que não desejava o seu trabalho ao seu pior inimigo. Este inquérito é apenas mais um entre muitos estudos que mostram que as pessoas não se sentem motivadas no seu trabalho, não se interessando ou mesmo detestando aquilo que fazem.

No entanto, este crescente descontentamento parece contrário à própria natureza humana. As pessoas sempre tiveram uma inclinação natural para se sentirem realizadas quando o trabalho que desempenham é uma contribuição útil para si próprio e para a comunidade. Foi assim que sobrevivemos enquanto espécie e foi assim que evoluímos enquanto sociedade.

O que explica, então, este profundo sentimento de insatisfação com o trabalho?

Há múltiplos fatores que contribuem para este descontentamento, mas a forma como o trabalho está organizado nas nossas sociedades é um fator-chave. A grande maioria dos trabalhadores não se sente envolvido na organização do trabalho que realiza, tem um vínculo precário e sem estabilidade, não tem qualquer controlo ou autonomia sobre as atividades que desenvolve nem tem qualquer direito sobre o resultado do seu trabalho. O trabalhador vê-se alheado do seu trabalho.

Os bens ou serviços que os trabalhadores ajudam a produzir não lhes pertencem, nem têm qualquer direito sobre eles. O controlo do processo produtivo e o valor do trabalho criado é gerido pelo empregador. Para muitos trabalhadores este alheamento agravou-se com a automatização dos processos produtivos em que o trabalhador parece tornar-se apenas um acessório. Há um sentimento de falta de controlo sobre uma parte muito relevante da vida do trabalhador e uma sensação de injustiça por sentir que não recebe o justo valor pelo seu trabalho.

A sociedade de consumo procura apresentar-se como uma panaceia para esta insatisfação. A infelicidade no trabalho seria compensada por um "consumo de conforto", possibilitado pela grande variedade de bens e serviços que o trabalhador pode comprar. No entanto, este consumo de bens descartáveis, para satisfação momentânea, que passam de moda ou que rapidamente se tornam obsoletos para alimentar a própria sociedade de consumo, não compensa e, por vezes, até agrava o sentimento de insatisfação.

Este descontentamento é solo fértil para o surgimento de extremismos sejam eles religiosos, políticos ou ambos. Os movimentos políticos extremistas alimentam-se desta insatisfação das pessoas, orientando esta frustração para um culpado que quase nunca é o correto: são os imigrantes que vivem à custa dos nossos impostos, os estrangeiros, aqueles que não querem trabalhar ou os que simplesmente são diferentes ou pensam de forma diferente. Neste contexto, a discussão é afastada do verdadeiro problema cuja solução tem de passar por uma mudança profunda na forma de organização do trabalho: uma nova organização que permita devolver ao trabalhador o seu trabalho.

Marisa Tavares, docente na Católica Porto Business School

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